Meditar Natal

 

Para além do mais é Natal, é tempo de reflexão. Precedido de mágicas legendas, ele é a memória de um trajecto mítico da humanidade. Realizadores dos mesmos imperativos da história. Mas ele é também o dia de hoje.

Natal é um dia na agenda em que se decreta a unidade da família e a esmola, pública ou discreta, ao pobre que nos maça todo ano.

Natal é o dia da inocência e da celebração do sacrifício anunciado; - um por todos, ninguém por ninguém.

Natal é o presente que oferecemos ao nosso filho, ao nosso neto, num sapatinho na chaminé. Natal da nossa mesa farta, dos nossos doces, da neve lírica caindo sobre grossos casacos de pele, do frio seco que não rompe a barreira dos nossos aquecedores.

Mas como pode haver Natal, se a fome espreita ou se instala,  o desemprego desespera, e a angústia cava sulcos de fel e de fogo no rosto do nosso povo?

Como pode haver Natal, se as prisões se enchem de gente que pede pão para todos?

Como pode haver Natal se são destruídos alimentos para garantir os preços do mercado, a uma economia falsa como Judas.

Como pode haver Natal, se em pleno  século XXI se morre de fome?

Como pode haver Natal, se com cínico despudor, se fazem experiências de morte na casa alheia, ignorando que a dor é universal?

Como pode haver Natal, se as tecnologias avançadas ameaçam de nos pulverizar, entre sofrimento que nem Dante viu nos infernos, esta pobre humanidade que quanto mais inteligente, mais lhe mingua o coração?

Não há Natal no medo e na liberdade mutilada.

Que Natal irão ter os povos que vivem a pressão das guerras, dos fanatismos religiosos, anjos da brancura dos sepulcros, em nome da cruz no Natal anunciado?

Que Natal irei eu ter, se disto me lembrar na noite de Natal?

 

   

Na feira térrea e pobre, cercada pelas margens da vida, há sempre alguém a olhar o outro lado do mundo interrogando-se desconfiada: - que outro lado é esse, resplandecente, que me parece feira de vontades, da abundância e do consumo?

Esta pergunta pode surgir em qualquer dia do ano. Mais frequentemente no tempo a que chamamos Natal.