Estamos insatisfeitos!

 

O anunciado projecto do Governo sobre a reestruturação consular visa simplesmente o encerramento de 17 consulados e deixa os portugueses residentes no estrangeiro cada vez mais descrentes no Governo PS / Sócrates e afastados de Portugal.

 

A verificar-se, a liquidação dos postos consulares ameaçados, empobrece a presença de Portugal no Mundo e agrava a situação das comunidades portuguesas em vários países. Uma forma bizarra do Governo fazer diplomacia e cumprir com os deveres constitucionais quanto à defesa dos cidadãos portugueses residentes, ou ausentes temporariamente do espaço Nacional.

 

Cinicamente apontam como argumentos a rentabilidade, a eficiência e redução da despesa pública, alimentando, por outro lado, a vaidadezinha nacional com as representações teatrais para uso interno, de enaltecer a ideia do prestígio de Portugal no Mundo com uma escassa presença de algumas centenas de militares em zonas de conflito; no Líbano, Iraque, Afeganistão, e outros países onde o sangue corre.

 

Prometeram melhorias dos serviços consulares e no ensino da língua e cultura portuguesa no estrangeiro. Apresentaram-se ao eleitorado como defensores de alguns dos poucos direitos que os emigrantes ainda beneficiavam. Não obstante, reduzem consulados, não desburocratizam os serviços e não cumprem com os deveres do Estado patrão para com os trabalhadores consulares.

 

Querem com este simulacro de reestruturação consular poupar um pouco mais de três milhões de francos por ano. O valor das remessas enviadas pelos emigrantes para Portugal ultrapassa, num só dia, mais do que aquilo que o Estado pretende poupar no decorrer de um ano.

 

Falando claro, querem acabar com o ensino da língua portuguesa para os filhos dos emigrantes, daí a embrulhada onde se meteram com a recente alteração do sistema de contratação dos professores. Na Suíça, algumas classes ainda não funcionam e os professores designados para os serviços da coordenação não podem deixar as suas escolas, pois os professores que os substituem ainda não foram nomeados.

 

Na área financeira retiraram aos emigrantes alguns benefícios no acesso ao crédito da habitação, enquanto que o fisco continua com a mão pesada para com os trabalhadores sazonais, aplicando ilegalmente a muitos deles o sistema da dupla tributação.

 

Neste cenário agitado, nem a imprensa das comunidades escapou. O acesso ao porte pago, para publicações impressas em Portugal e destinadas ao estrangeiro, foi abolido.

Beneficio que também os dois jornais portugueses publicados na Suíça usufruíram, foi-lhes cortado recentemente. Primeiro, foram utilizados como cobaias na publicidade às iniciativas governamentais e agora, porque dizem terem descoberto outros meios de comunicação mais eficientes (?) e economicamente mais rentáveis, “ dão-lhes com os pés” escandalosamente, obrigando os directores das publicações afectadas, entre elas o Gazeta Lusófona, a enormes esforços suplementares com o fim de satisfazerem os compromissos assumidos com os leitores e os anunciantes. Não podemos, nem devemos esquecer que estes jornais são um património importantíssimo da comunidade portuguesa na Suíça e um elo de ligação entre a comunidade, a sociedade local e as entidades oficiais e Portugal. A mesma sorte foi reservada aos jornais regionais em Portugal.

 

As comunidades portuguesas no estrangeiro estão colocadas perante um tratamento discriminatório e de falta de lealdade de um Governo para com os cidadãos ausentes no estrangeiro que, afinal, mais não está a fazer do que a política do Governo PSD/CDS que tantas vezes o PS na oposição criticou. Sabemos que ao longo dos anos os sucessivos governos têm estado de costas voltados para os mais de cinco milhões de pessoas, só não se esperava a descarada mentira que nos pregaram.

  

Manuel Beja

Conselheiro das Comunidades Portuguesas na Suíça

manuel.beja@bluewin.ch