rui alberto cardoso

 

ao pé do mar em Paço d'Arcos

 

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CRÓNICA

 

Paixão esquisita seja, raio! Ou sisma.  Assumo por inteiro. Pouco importa, encolho-me em ombros. De cada vez que falo de todos. Até ouvir outros falarem de nós todos

condescendo sem desolação. As palavras surgem a ensinar-nos. Ando de tibieza em tibieza sem razão aparente, razoavelmente comigo procurar verdades no saber que não faz futuro. Imediato. Mas fez-se futuro resmungo! Ando sempre atrás dos sentidos do que se fala. Despreocupado não tresmalhe o presente. Guardo textos de filosofia como veias cavas e aórticas do coração de mim. Há muito guardo palavras bonitas. Que lembre conhecer-me. Nem que faça fogueira com atilho de lã  regue com petróleo o mato angolano para ouvir meu avô contar histórias que medravam hipopótamos e jacarés. Contava-as convicto. Eu rei, enxergava. Filosofia e infância sempre me fizeram. Ambas desmanchar-me vida nelas, sempre. Fazer-me pessoa dos momentos felizes. Ainda hoje ao acordar dei com rolas no parapeito da varanda. Arrolhavam insistentes, pareciam zangadas. Enquanto escanhoava-me recordei minha mãe dizer-me menino chato por fazer tantas perguntas. Ainda hoje quero-me  saber nelas. Ela hoje raramente mo diz

troteia esquecimentos penso eu. Hoje,no espelho da casa de banho vi-me um rosto semi-alegre Não são rugas julgo,traços desalmados talvez  silenciados

 

 

trespassando-me a pele

Arrancar u

 na espuma branca. À pouco nesse rosto fui eu que abriu persianas enfrentando estóico rolas madrugadoras na assoalhada aonde acaba-me o retiro. Mas se acaba-me a casa nisso caramba, começa-me o céu até o mar … depois do último passo para atirar a beata do

fumo sem torcer demasiado a coluna. Espelho e Filosofia sempre houveram comigo. Nunca soube explicar. Sinto. É deambulação ou vazio não caberem afoitos na vida quotidiana para alguns, gosto 

enamorado mania e divagar quando tudo surte de contrário, há muito, perguntar, torcer-me desmesuradamente na coluna. Espelho e Filosofia houveram comigo sempre. Nunca soube explicar porquê. Talvez não tolhe o que sinta ou faça nem os pontos cardeais me premeiem onde estou no que sou a fazer o quê! Um dia releio Filosofia e sei, sou feliz. Por cada palavra no silêncio sentido ainda que abrupto palpa-me o corpo nas searas com silêncio e é violência, volto a ler Filosofia. Enaltecido nela revisitado o niquinho de vida sem desperdício, ter sido diferente. Nesse instante deambulo encapuzado para tactear sentidos ínfimos ou gotas de água na flor inclinada sobre a terra sem silencio ou serenidade nas oferendas de penugens

de pássaros tresloucados por fêmeas

odoríficas. Nisso sei, sou feliz. Como

desejo tramar os sentidos   absurdos abeirados íntimos como rolas.Mas nos significados ser-lhe maior.

 

 

a página

Conseguir saber que

 nuvens não são abóbadas argilosas nem limbos vermelhos mas delírios astutos silenciados. São-nos silenciosos. Saber que no livro de Filosofia eles vivem, esvaem-se como seios femininos, ligam-me à vida de estrelas entrelaçadas, areias aveludadas onde nasce o sangue. Ligo-me à vida por Filosofia. Peço ao leitor liberdade que me é fraqueza: inacabada ignorância implícita querer ver fundo na água uma carícia que fosse, ver, mas o redobro das páginas no meu livro de Filosofia remoer-me sempre. Gosto da lembrança que deixa inacabada a ignorância. Amo a Filosofia. Gosto reaprender o que faz-se sentido, uma glosa sobre a felicidade, o fim triste da pegada. Amo a Filosofia. A dana que tenho arrancar uma página de palavras redobradas vincadas no canto superior do livro de Filosofia!... contêm idílios vagos talvez, proeminências de maresias até desejo prosado remoerem-me, falarem por mim. São palavras aprumadas verdadeiras, importantes em tudo que é vida. Os espelhos nas casas que habitei até hoje sempre foram fonte de leitura. Narcisismo ou devaneio lustrado? Isso não sei. Que foram sempre incógnita, sei, da minha figura que transparecem, sei! Na minha, uma merda. Com o avançar da idade o espelho reflecte-me intenso, teima a minha ignorância de espartilho medrado. Não procura razão. Procura o difícil. Em mim compreensão inusitada. Que eu compreenda muito em tudo. É possível ser ao espelho tudo no mesmo tempo? Arrancar uma página de Filosofia para o coração quero, dá que pensar-me!Serei suficientemente convincente, dotado de raciocínio irrefutável, inequívoco, livre, sobre o amor à sabedoria? Arranco uma folha mas chorarei certamente.

Paço de Arcos, Fevereiro 2009

 

m

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


22

 

 

 

Os chavalos d`hoje são os maiores! Cinco estrelas. Eu até vivo, orgulho-me. Presumo conhecê-los. Em muitos chego reconhecer-me. Nalguns, medito a educação que tive de meus pais. Geralmente nesse exercício de mente aflita, acerto na conduta e olho para as estrelas e digo para mim ser melhor. Agradeço-vos, Pais. Alguns dizem deles serem pouco dados às matemáticas! Também nisso sou fotografia chapada. São as proeminentes inteligências. Batem-lhes sem régua de cinco

olhinhos,bramindo enfatizados argumentos que dela dependem desígnios básicos ( assim tipo caboucos) para tudo na vida e que tudo nela depende o que conhecemos como se nesse tudo outro exasperasse-se finitamente inamovível e sem emoção, insuficiente para ser-se, gostar,

amar, ter sentimentos ou dedilhar. Nestes exagerados chavalos, que são sentimentais d` hoje, espertinhos suficientes contra a morte, estudam muito em títulos enviesados, são contra a morte de uma mosca pornograficamente refastelada na sopa. Pouco de nada o que é preocupante, temos a desdizer ou afirmar com garantias, serem melhores que os cotas, quanto mais o dizermos!

 

Batalham-se em crítica com sentido mas no sentido de criticar. A tramóia que não enxergam facilmente é que os cotas fazem-no por tentativa visar obter sentido  porque no tempo em que eram chavalos, o sentido da crítica não fazia sentido mediático, era pouco entendimento entre culturas vincadas sexuadas entre homem e mulher e vice-versa. Pouco corríamos atrás dele, o sentido, omnipresente inalcançável. Hoje, a vida refastelada de adulto comprometido com filhos ignorantes não tem sentido. Os chavalos d`hoje estão com razão. Ou amam e gostam ou deitam fora, logo. E se tocaram? Aí é que a porca torce o rabo. Vem o cota empoleirado na Licenciatura tirar

razões académicas sobre o que o coração ditou ao chavalo ou chavala no

consentimento. Já nos demos conta do que defecamos para os jovens

d`hoje que são os pais de amanhã? É que num cagalhão contemporizado expelido podem caber revestimentos com restos de lagosta salpicados de esparregado e assim incomodar a ignorância, o voluntarismo, abdicação até quiçá o altruísmo, figura selecta, na personalidade dos chavalos

d`hoje, da verdade do amor ao próximo, do desapego ao bem material. Paremos nós mais velhos! Paremos. Ainda vamos a tempo. Contra mim também falo. Os chavalos em desatino que confundem, são amistosos na geração deles e sabem muito bem o que é a merda e afluentes conspurcados, insolentes, desenxabidos. Os chavalos d`hoje até namoram convictos, raio! Tendem ser mais que assertivos! Aí é que está o imbróglio… ( não é bem isto, raio )

Nós cotas, deixávamos cair uma moeda ao chão para darmos um beijo  claro, nisso vinha muitas outras coisas! Agachados os dois... convictos a coisar e às tantas pampas a desemaranhar e toma lá dá cá por refinado até a coisa arranjava-se compunha- se com um dos dois que humilhasse sentimento ou o engrandecesse. E nele que fosse grande! As artimanhas eram laboriosas. Hoje são mais artilhadas porque engenhosas em sabedoria e

 

 

conhecimento científico e poder dissuasor da dialéctica. Direi, numa oratória mais conforme. Apelam mais sofismadas na razão e pragmatismo, hedonismo talvez, correspondente à altivez suficientemente voluntária no traçado pélvico na primeira carícia trocada que se quer percorrendo a pele até à sensibilidade e esta ajuizar livre e consciente para a permissão. Nisto tudo que digo é verdade o que senti para me sentir um pouco mais adiante, um pouco mais nascido primeiro, um cota na efusiva alusão dos que me procedem. Matutei na cena: desço do comboio em Paço de Arcos. Uma algazarra de finalistas do secundário traçam arabescos nos muros da estação ferroviária. Paro e contemplo. Desenhos bonitos. Frases académicas com sentido mas a mais forte para mim é a que se lê “ direito a quem está certo”.Acendo um cigarro e dirijo-me a eles, todos. Improvisei estes versos ao compasso do guitarrista do grupo dos novos anárquicos. O mar está ali perto. As ondas alteradas. O sol teima aquecer-nos o sangue nas veias. Pessoal, aqui vai a minha letra… querem atenção?!

toca chavalo…

Eles, os chavalos d`hoje , cinco estrelas, que se comovem com a morte de uma mosca pornograficamente refastelada na sopa, atentos iguais eu neles...

Eu e a minha poesia… vou dizê-la 

toca a guitarra… eu até vivo. Orgulho

Se transgrides apresenta solução/

Se negligencias diz fraco o coração/ 

Se atrapalha a fanfarra da obediência apresenta melhor consciência/

Se os cotas armadilham as cenas faz/ um argumento onde caibam na cena/ os bacanas a comandar na regência/

No stop no dance/

mas tu jovem apelas sempre para outra

cena/

Faz rap a moral que diz não leves a

mal/

A merda é não falharmos no pecado

capital/

Vamos nessa/

Construir melhor/

Remendar a alma sermos melhor/

Não engrandeças a city/

Ela é cheia de tiques/

Vamos nessa construir melhor/

Sempre com solução em cor/

E alma melhor/ 

Paço de Arcos, Fevereiro 2009 

 

 


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No embaraço das idades o Sr. Gaudêncio (bem vejo...) finge não sentir as fezes no copo plástico expelirem odores no balcão da farmácia, até a 

urina acre, deslavada,mesmo a placa dentária carecer concerto, até o canário amarelo que foi para os anjinhos no lamento da Sr.ª Adelaide que ontem, sofreu segundo revés. A sogra finou-se. Está retesada em tábuas alteadas na sala da paroquia, pede no grito opaco vigília e carpir atentos, comezinhos, purgas enjeitadas sem velinhas nem anjos tricolores com asas bordadas.

- Dois antibióticos e a pomada para as costas qual o infortúnio sobre o que chorar…nesta palavra, descrita, vossemecê parece-me sobranceiro…repito, raio! (a dentadura em gaguejo) já disse, é mouco? dois antibióticos mais a pomada para as costas... olhe, a minha senhora até pediu por e-mail, estão reservados? para nós, família Prudêncio, sou o Prudêncio ainda chefe de família, se caquéctico ou o que me chame quem mais novo, luto eu desenfreado tal cavalo antigo dos reinos de freios desembainhados nos recursos, saiba jovem, idosos parcos, humildes, tal ninho de andorinhas e não sei se chego à primavera, mas neste início de inverno vamos convocar a velhice dos futuros reformados, sabe? vamos protestar...queremos é saúde, fazer uma rádio, jovem, dizer de nós, não querer viver mais que primaveras essas, vão-se no sexo… queremos é química verdadeira médicos a receitar bem, tempos de espera aceitáveis, as reformas chegarem no mês desejado mais curto nos dias sem tremerem nos receios a fazerem-nos menos indigentes nem todos trapos velhos ou isso… vê? isso...

- Sr. Prudêncio acalme-se… o antibiótico das coronárias pedido tarda, tem muita saída, esgotou!… o email

 

 

até chegou atrasado, veja bem… a Farmácia...

-Contra o esgotamento! stock o que disse?...argumento! se o médico não sabe de modas jovem, vamos é protestar, uma rádio dos de bengala, os de dentaduras disformes, de joelhos recolhidos no estômago, de falanges enterradas nas ancas, de pernas cortadas até nas cadeiras modernizadas em GP`S, todos, serpenteiam aflitos corredores infindos de hospitais com loucos, cheiros a sovacos meias putrefactas, sei, eles desejosos, todos, de banho, de alguém que lhes afague as partes, essas carnes soltas saídas por cima do cérebro a quererem manter-se hirtos como árvores... Meu queridinho livro de poesia queridas bolachinhas em amparo afagando-me a carne e surges tu, poesia, alagada no sofrimento

elegante, meu, ditar-me outras meiguices braços pernas ancas ferrolhos velhos e chaves toscas, ditar-me o corpo rijo, formosura quase atlética (as mulheres musculadas não me

fascinam) neste cantinho sou ainda novo, os livros de poesia algumas bolachas, mas o quadro do Matize, comover-me na nesga vagarosa da luz, no jardim onde não param ainda os meus companheiros saloios das larachas e escárnios, do tintol nas cartas abafadas, das traições da carne com a vizinha do gato felpudo, que mulheraça, neste cantinho faço o meu retrato de velho algo trémulo com a vida ela que não me trema no corpo e menos no cérebro, a esgalhar conjuras sobre a reforma o esquecimento, da vontade em mijar, da vontade de acarinhar a parceira, neste cantinho faço preparo da vida menor não sendo nela o que me alegra usurpar tempo, paixão nas palavras que tento escrever, das que leio doutros escritas não terem a minha alma descarnada. Meu querido Matize, como adivinho paixão ter-te conhecido mesmo se ainda não vou a tempo de te conhecer e tu, nas cores que escorrerem no silêncio da minha doença, o brilho decantado já como amanhãs, apareces fresco, juntas-te à nossa luta de velhos futuros em conjura. Vais para a nossa rádio 

 

pintar a vida para despertar e perseguir os novos que andam com

arte a menos e  demasiada fobia de dias abundantes

desperdícios, tanta inteligência a rumar às valetas.

Num dia chuvoso, quando as filas carregarem semblantes da intempérie, abeiro-me na vez, obediente, depois, em tom de pintassilgo, sem gaguejar, pergunto a esconder a hérnia no testículo direito proeminente concavado

- Sr. Farmacêutico, ainda pensa sem cabeça?.. depois atiro-lhe a minha à vidraça do balcão que reluz fármacos e prospectos apelativos com viagens para determinada quantia na toma, depois, pergunto se existe vizinhança feminina com gatos felpudos ao colo depois, saio em gritos, tentar correr no passo na revolta galopante do testículo metido na sua hérnia ordinária camuflada na braguilha, gritar

-os mimados façam uma revolução, gritem abaixo os medicamentos viva a doença dos que não a têm… viva a rádio nossa, futuros velhos com a voz correr sem bengala com o livro de poesia seboso entre dentes na mão direita suster a hérnia no testículo direito, descer a calçada com lunetas mas ainda ver o terraço no pedaço da pisaria ser pisado com clientes finos com carros elegantes afocinhados nos rabos parceiros a tirarem a ordem do código mais do código na conduta cívica.

Se puder escondo-me ser velho porque escondo-me envelhecer e não atraiçoar ilusão estorva cada vez que me excite ver mulheres ressabiadas, depois serem mães, guilhotinarem os silêncios no parque onde pombos embeiçados no repuxo de água fá-las voarem para mim. Eu, um livro de poesia, os dois esborratados de dedos sebosos, armados aos píncaros, dançar-mos na leveza das folhas que revolteiam ramagens nas árvores do parque e recusarmos dar milho aos pombos e não cheirar a chulé.

A Sr.ª Adelaide convocou os futuros velhos para uma reunião no parque

Condição: terem asas e serem rapinas de gritos contidos. Lá estaremos? 

Paço de Arcos, Janeiro 2009

(Pintura de Matize—coluna central)

 

 

 


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Nestes dias vigorosos sobranceiros começados contados frescos e alguém pensa-os recomeçados nos espantos, espantados sacrifícios, ou morbidezes, festividades, na vez doutros, alegóricos, calendarizados, parecidos até de novos afinal presos não tardam aflitos, no prego, há muito frouxo, eles agora dependurados no metal contorcido na ferrugem húmida da cozinha, nas fragrâncias de baunilha, canelados em ovos, nas sobras amontoadas da robustez da saúde expelirem-se na pele do corpo, numa silhueta de figura                                - alguém mudou a página calendarizada nos números ao redor das fotos alegres? nas sombras periclitantes em contra luz nas filhas, nos seus corpos silhuetas também, reparo enormes, minhas também, que crescem de braço dado, quase rapam-me na calvície a altura dos ossos também um dedo com o lápis num dedo adolescente como noutro dedo adulto ambas desiguais na igualdade do lápis traçarem palavras    - este período escolar vai ser tramado

mas tu Pai, vê lá, pareces mingar!

olha as janeiras vão-se nos acordes em ápice, carcomidas lamechas, a primavera vizinha é frondosa, florida...eu a ver e não inclinar a cabeça, raio,

canecas do pequeno almoço nelas bonecos alegres enfeitados nas cores de jardim, mesmo faustoso encorpado no frio regelado onde algo sempre emerge dizer-me nas lágrimas por dentro como sopro desprendido leve ou esquivo quase quando delas surgem      - não vou lavá-las é isso que digo, é... (tenho que ser diferente cruz canhoto) prometo-me nos silêncios das canecas que entraram dias novos e fragrâncias quase infantis de pequeno não serem 

 

egoístas, fagulha estúpida saltar-me   nas palavras, solta, largar desdém ver crescer no voo rápido rapino da vida em pujança galopada mais futuro, os rostos na água de coco na ilha do Mussulo, metidos nela, pequenitos ternos esgueirarem-se nos ossos e quererem espreitar o mundo por baixo, a luzirem. Como crescem! As filhas detêm-se cada vez a luz desequilibrada abraçar-lhes uma flor. Conservam-se por nós silhuetas de nós, soltas esfinges entre areias, raparem-me na calvície altura de ossos quantos os números enumeram-se nos lábios, contornos de chorões ondularem carnudos, como os desejo, oiço-as agitadas no vento ao redor da mesa dizer felizes de olhitos cerrados

olhitos para mim, infantis ainda, raio, entrou o ano novo) no tropel fundo como polpas em céu alaranjado nos arrais de medos confusos                      -mãe, pai, doze passas com desejos, os vossos, por cada uma e de cada vez, guardem são segredos fundos...    (tenho que ser diferente, cruz canhoto), entra um mês novo no novo ano, num sopro, um ano festejado foi-se duvidoso mas ressurge, em rompante musculado no relógio, então, o champanhe borrar-me a vestimenta da pele, sempre assim, raio, é falta de jeito? Será que me borra o ano a menos na vida, noutros borra-lhes um a menos na reforma? Lá vai champanhe, o corpo enfeitiçado em alegria                        lá vai champanhe… é coisa nobre eh lá, gaita da rolha... saca-a...jeitinho        a borrifar testamentos no meu, segredado comigo, as doze passas aferrolharem-me a garganta um sopro em compaixão, como nos anos, as mãos das filhas rasgarem farripas desordenadas flutuantes embrulhos de meninas que não correm já em  passitos para o colo da mãe, afagarem-lhe na face alegrias, beijinhos serpenteados

 

 

nas mãos esvoaçantes. Nesta crónica de propósito, roubo o que não sei na adivinhação, mas roubo mesmo, um pouco do sonho, um pouco da ternura, um pouco...se abdicar do que sou um dia não terei um jardim… assim escrevo a surripiar anos por vividos, nem neste de novo, persuadir-me diferente porque o champanhe, raio, borrar-me-á sempre que ele aconteça… a vestimenta carcomida, a vontade de não explicar ou mas escrevo isto tudo no que terá sido o novo ano e não ano novo...                                            não sei que receba num sopro             é flor é vazo vazio talvez branco frémito perguntar-me na montra          a laranja o corpo                               se o tempo recomeça nos lábios     onde acende-se o sono nupcial   continuo em partir a crepitar               e família e gente antes disto     debaixo das acácias africanas       outros pequenitos                         faziam a festa com tenazes      saberem que suportaria o papel numa mesa acordes e graças                   saliva na boca tentar equilibrado   saber escrever na voracidade               o patamar matinal a nudez                no mundo                                    tentar encontrar tantos em fúria          e cegos um silêncio                        onde amarmo-nos                         perdi-me no arbítrio                          na acácia esfolhada debruçado       ainda frágil nas palavras               sobre madeiros aéreos                  tentar abraçar festivo um pássaro     nas cores e vento desajeitado...

quando no novo ano vejo, sem ela, a lua diferente uma estrela diferente o céu diferente como passaporte, o champanhe borrar-me a vestimenta (um dia entro furioso no novo ano de pirilau ao léu com ninfas ignorantes que ele muda, a convencerem-me disso) atiro a cultura à merda das urtigas, ao champanhe faço-o brotar das canalizações caseiras. Cada vez que tenho o novo ano lembra-me um atalho da vida chegar onde percorrida quase afável onde estivesse querer desejar estar com tudo mudado? é que prefiro o novo ano ao ano novo ele mais estranho, selvático embrenhado nos desejos confusos mais sofrível até entranhar-nos a lassidão a estupefacção. No próximo, entro de pirilau ao léu, uma flor na boca e um carneiro amarrado na mão em...

Paço de Arcos, Janeiro 2009

(Desenho de Amadeu Escórcio)

 

 


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CRÓNICA

 

de dizer querer mais para mim. Logo agora, Jaime, que a noite avizinha-se de estrelas frias no frio foliado que até os Homens as manipulam em cores berrantes luzidias, doces e tremem frenéticas nos vértices por serem estúpidas ou como cativas...

- é Natal é a tal teimosia a tal alegria

mas da noite que falo com estrelas nela, o Jaime recolhe às escadinhas da Praça Principal.

Miséria

Quando também essa noite tolhe na falta de andorinhas ou gaivotas mancas na pele, ele abafa-a sob cartão retalhado, chorado, quase aposto.

Por mais em Dezembro… neste mês as árvores despidas quase repousam enquanto fogueiam indecências que dançam solitárias sem brincos nem alegria de água.

Por mais em Dezembro... os albergues

atulhados com gente pior que ele… que nós...por mais em Dezembro... as sopas sorvem mais pão…por mais em Dezembro pessoas, algumas, mais feridas ainda por dentro…por mais em Dezembro incomodar-nos um verso já entoado no esquecimento revolto senão remoído quase fresco…por mais em Dezembro… é quando alguém afaga um vazio entre estrelas quase serem terrenas no granito das mãos depois ver despertar uma pedra lisa, escadas até serem um deserto vegetal nos flancos da rapariga bailarina num ninho de argila com lábios e seda e fôlegos enternecidos reflexos de nudez nas virilhas penetradas alegres ondulantes uma coluna da falésia que ressurge na lua mas agora visível num torso de ânfora onde cabes e eu, ambos, não sabermos voltar a brincar até ao sono antes das prendas num ritual da cercania no presépio.

 

- Espreitamos as mãos do Pai Natal?

O Jaime a desafiar… é Dezembro

- Ele faz tudo como se num leque e surge sem reflexos de areia ou palhinha abrindo-se na mão ou espáduas de uma vaca em sílex ou de um burrico lento, mas esperto vejo em ti trejeitos saídos nas mãos encolherem o estômago também abanares um postal redobrado em forma de leque onde figuras infantis desenhadas contra a montra dos nossos autores no nosso encontro, bailam

-andas a dar na veia?

no silêncio, eu afinal no rosto do Jaime, comedido, como sempre, na amizade que nos une, velho Jaime, num rompante revoltoso amigo, antigo, na encolha de ombros sobre a voz bonita, castiça, no timbre doce a talhar talvez quebrantos concelebrados

- tolho-me com a vida sem mulher mas descendentes saudáveis, autónomos dou na veia da vida, percebes?

tenho saudades do Pai Natal dos meus filhos… numa alegre tristeza por ser

Não comprámos livros nem os tacteamos. Na Igreja o sino timbrava mais uma ... natalícia… Jaime!

Jaime!

...sentes nos ouvidos os sinos?

o corpo regela-te? caramba!

- vomito, logo sou…

Dizias quase despido no que quer que seja eu digo-te sejamos apenas um entre tantos, despidos...

- vomito tudo no todo, logo sou...

incómodo talvez… mas é Natal recebe o meu abraço como o dos matraquilhos e sejamos nós em fazermo-nos felizes... ouves?

(Grafites em Setúbal)

Paço de Arcos, Dezembro 2008

um Natal como o dizem

Desejo-vos feliz

Conch

Agora que se foram as andorinhas sente-se indícios nas casas com invenções de cheiros novos, agora que no voo saudoso das asas gregárias talvez que fosse também a minha paixão, fosse a esperança renovada,

até a última lágrima de alegria ou nele esquivas sombras aparelhando-se nas esperanças, também ouvimos dizer que tudo se repete ( sinto é que virão andorinhas novas…) mas o Jaime, raio, vive emparedado em cartões sob as cúpulas do Café Central! Perto de onde começa o mar. Agora que soube, nos meus olhos, percorro estantes arqueadas no peso de livros. Será antes pelo peso de histórias nas palavras juntas e que pesam? Elas têm peso, nisso acredito! Agora, que também não vejo nem oiço andorinhas, as da alegria, elas alegres. Soube-o na expiação a livrarias. Logo agora que é Dezembro, Jaime. Também espreitavas no vidro o que ambos precariamente sempre suplicamos. Escrever o que temos dentro e sentimos nem sequer saber inventar. Logo agora Jaime, que não devemos esquecer um lenço ou uma pétala na lapela... aperaltarmo-nos. Mas tu numa camisola rasgada num corpo franzino a barba num desleixe, eu julgar-me normal, como ciclicamente e bebo até modero o sexo mas sem vontade de menos, que é minha vontade, secreta,

 

 

 


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CRÓNICA

 

em arrufes e mesquinhez. Traçavas arabescos nos episódios de amor, ou seria um só amor em que te perdeste fiel mas eram lágrimas eram flores eram grilos e azevinhos mais as  silhuetas próprias do corpo. Isso é verdade, realmente o que apetece, no giz de cores, é lacerar os muros das escadinhas que ladeavam o pátio maior do liceu.

Será que ainda desenharás assim?

Ainda hoje que te reencontro?

As gaivotas esvoaçam livres sobre o teu casalinho brincalhão à beira-mar .

Lembro-me do teu traço numa rudeza talvez aspereza silenciosa nas saliências do betão e tijolo fazer ranger um som quase opaco ou talvez pesadelos ou tormentos ou insígnias assertivas como espasmos nos orgasmos . E todo o orgasmo é importante para a alegria. Não dizeres uma palavra. Dizias nos desenhos gritos felizes masturbados

outros frívolos tristonhos sem claridades. Sequer um som onde beijarmo-nos, apenas escrevias as

dedicatórias de amor. Até entender foi uma carga de trabalhos. Amarias todos? Nesse silêncio onde ficavas nas correcções com o giz a custo sofredora, ele escondido, traçavas corações nos muros de cal descarnada que eram pretexto para a chacota do maralhal do liceu.

Isto do coração desenhado é que me complicava o raciocínio. Complica-me

ainda hoje em tudo. Não cruzavas os corações nas setas nem o vermelho preenchia-o. Agora que falamos na esplanada e Dezembro

decorre não pedes nada em especial nem me corriges as frases da crónica que tento escrever. Mas pressinto-te o punho de vez a vez elevar-se da folha como a gesticulares num desenho mental as paixões nos bonecos, os braços serpenteando os corpos

- sempre que desenhavas corações eu não entendia

 

 

Lembro-me nos dezoitos (temos a mesma idade separa-a um mês no dia dele diferente) nos muros num amor foragido que romanceavas dizer-te não tirar a carta de condução por não me sentir burguês e porque o meu pai me obrigava a polir com sabonaria os pneus do carro e tu revelar-me quereres ser Antropóloga para saberes da história do Homem. Hoje

que é Dezembro as gaivotas continuam afáveis. Também se beijam. No muro da capitania marítima fazem-no no chilreio disforme do vento nas suas pregas, entre as nossas mãos a despedirem

se muito diferentes dos dezoitos anos em frente do liceu. Eu queria só é escrever e tu compreender o Homem. Eu não queria lavar só pneus nem ser burguês. Tu continuas a querer a humanidade. Neste fim de semana calha-te estar com os filhos.

Bebes um chá eu o café do costume.

Despedimo-nos com as mãos despidas. Continuo por compreender o que é o coração. Nos muros o amor desenhado desconhecia o futuro

rasgava o presente como filamento acre-doce, aquele que separa as andorinhas nos ninhos nas primaveras nos sítios aonde se

colam como apego último e se assertivo longe de predadores, é assim que pensamos afinal, tantos anos passados, os dois. Os teus filhos ainda brincam.

 

“...nos muros o amor desenhado desconhecia o futuro rasgava o presente como filamento acre-doce, aquele que separa as andorinhas nos ninhos…”

 

Paço de Arcos, Dezembro 2008

 

Conchas, búzios e areias

O começo do amor sempre me intrigou porque quase sempre nele germina como adolescente enquanto adormecemos sob noites sem itinerários, ou sequer saber dos

muros copiados nas ancas e sexo inertes nas suas sombras do giz. Quem me diz convincentemente o começo do amor? Hoje que te reencontro lembro-me de ti, Aurora. Do amor, talvez. Lembro os nossos muros. Lembro a decência na rebeldia no inconformismo como lembro certo anarquismo nos sentimentos em nós soltos quererem apanhar o mundo todo numa teia como faz a aranha. Queríamos então era apanhar os amanhãs! Todos os amanhãs. Posteriores ao nosso despertar. Hoje tento compreender. Como me lembrou que teríamos crescido enquanto ainda crescemos das noites que teimam continuar a existir, como existe o sono além das borrascas. E então? Estaremos realmente crescidos? E crescidos assim suficientemente adúlteros para não lermos já Pablo Neruda ou Daniel Filipe? Crescemos suficientemente? Quando? Cresceremos sempre?

Agora que te reencontro na esplanada da praia remordo nestas coisas, confuso. Reparo que tens filhos. Como brincam na areia, nas ondinhas ali perto no cristal do sal no emaranhado das conchinhas e terra lavada um casalinho de feições distintas

- És uma rapariga sortuda Aurora

como reparo nas gaivotas esquivas que não abandonam este sítio elas por aqui até procriam na gritaria usual no espaço entrecortado de rochas e limos

- penso serem felizes

no liceu tinhas já um jeito ambidestro para o desenho nos muros. Até de caricaturas. Os professores, todos eles, cabiam nas feições distorcidas também reconhecíveis nos tiques e trejeitos que entrelaçavas no traço sobre a cal

até nos tons das cores sobre a caliça

 

 

 

 

 


17

CRÓNICA

 

eu a atravessar a casa com o São José de barro nas mãos dentro da caixinha de cartão tricolor com as bandas caídas pelas humidades a mesma caixinha que há anos arrecadas secretamente com anjos, pinhas secas, colares de redondel estalados no verniz de ouro, entre os caixilhos e desenhos infantis das nossas filhas, a mesma caixinha de cartão com furos desencontrados de lapiseira para o musgo arrancado à terra respirar, a pobreza na vida e nós a respirar dela, que é nossa afinal, logo hoje, eu a querer inchar o peito, afoito como uma criança, a olhar na montra a guloseima amendoada apetecida e tu olhas as cartas, nelas, se palavras agrestes, comentas ponderada enquanto afagas com a mão livre os cabelos que embaraçam-te os olhos      - existe gente pior que nós nenhuma lamecha por não terem pão... e tu a recitares o poema para mim, o São José encavalitado nos montes arenosos artificiais, que o sol secou, dentro da caixinha num ano já quase passado para desconjuntar-se também o fio tricolor que a remendava a segurar os furos de lapiseira da instrução primária. Depois do poema, que sabias comover-me, ias num passo jovem abrir o ferrolho da caixa metálica do correio, geralmente nela quedavam-se papeis publicitários mas

outras ocasiões pairavam de longe a longe(não agora) outros lavrados e com selo descolorado provocavam-te o vazio (eu sabia-o na tua feição, amiúde, ou na mímica muito

pouco feminina dentro da revolta interior a cavalgar-te bruta mas silenciosa) esse quadrado metálico nas suas marcas de ferrugem com solidão do nosso tempo na intempérie desgadelhada chegavas amuada, cabisbaixa, para dizeres

- Hoje nada...só ferrolho e ferrugem a caixa do correio metálica a tardar perceber que o Natal avizinha pessoas mas tu ávida por cartas das filhas com cheiros silvestres ficavas lesta enquanto enumeravas nos dedos entroncados no sentido contrário ao ponteiro do relógio o sentido talvez impregnado talvez em folhas sucessivas uma enumeração de coisas de situações de personagens que esperavas sempre no ano repetir-se como

 

 

quando conseguimos viver juntos todos na nossa casa e ela toda no cheiro de finais de Novembro farto, aromatizada com o pinheiro robusto verde forte mas erecto enquanto descarnava suspiros no ar e das ramagens caídas para os lados pendiam bolas acrílicas e pais natais de feltro no vermelho dos fatos. Lá fora a chover pedras no rímel das cartas na passagem dos anos por darmos vida nos filhos por eles teimar-mos construir um presépio no ar (não, raio, na terra que é nossa casa) na liberdade irrompendo-me ínfima nesse silêncio contido na pulsação tu a espraiaras-te no cantinho com as cartas que tardavam depois, eu sei, nas vezes que abrias o ferrolho da caixa metálica acendiam-se folhas que apressavas desdobrar como serpentes ondeadas a subirem-te na pele mas afinal palavras de papel a deporem fulgor do encontro adiado ou minúcia de carinho na saudade do Natal quente de cheiro a musgo com avós que inventam magia.  Sento-me no sofá da sala. Volto ao convívio da família. Volto a ti afinal. Digo-te baixinho, como para mim, as filhas nasceram há muito e o presépio quase composto debaixo do pinheirinho quase no mesmo cheiro, quase no mesmo espaço. Nem aos cinquenta anos sabes segurar a curiosidade. És uma criança a espreitar no frasco de vidro transparente a guloseima predilecta. Nos teus olhos um rímel discreto adivinhava já Dezembro. Lá fora chovem pedras no rímel de criaturas quase desajeitadas afinadas no ritmo surdo interior de ir e vir do trabalho. Fartas talvez de sonhos a calcorrearem ínfimas meiguices afeições desveladas no fim de semana próximo. Quando é o Natal? Dão-nos mãos rugosas prendas que valem mais do que esta realidade.

“...nas vezes que abrias o ferrolho da caixa metálica

acendiam-se folhas que apressavas desdobrar como serpentes ondeadas a subirem-te na pele mas afinal palavras de papel a deporem fulgor do encontro adiado ou minúcia de carinho na saudade do Natal quente de cheiro a musgo com avós que inventam magia…”

Paço de Arcos, Novembro 2008

 

Conchas, búzios e areias

Outra vez nesta ausente vontade em agir, agitar-me, sequer comover (nisso sou fácil) sem vontade para nada porque sei, chovem lágrimas lá fora. Vejo nas árvores essas lágrimas nelas agitarem-se nas parcas ramagens agarradas nos ramos quererem resistir ao frio em tudo. Fim de Novembro, talvez por isso. As pessoas frias mesmo as pessoas frias que não conheço volteiam a face fria para o asfalto frio. Vão a caminho de quê? Vão tristes, sinto afinal. Quero agir. Mas vão enredadas num ombro animal figurado com pedras nos olhos e nas mulheres como astros fossem na maquilhagem. Vão indolentes todas elas talvez esperem como oferenda uma primavera num embrulho multicolor para sacrifícios e penas. Chovem gotas com água no rímel e chovem pedras e agora chovem lágrimas, para mim, nelas o rímel aguado escorreito para os homens. Mas teimas na récita do verso da nossa casa nos interstícios olvidados nas ramagens hoje ainda perduram a roçar água salgada dentro da saliva mas dizias na voz sofrida as palavras nesse poema que teimavas com decoro no centro da sala

...num silêncio contido para ser cântico/ será fuga sagaz tropelia nos gestos da fome nos brinquedos lembrados presenteados em alquimia em rasgo do espaço nas mãos familiares assentes nas rugas hoje os brinquedos ainda não são insignificantes quando crescemos depois do infantil mais temerosos no vapor das minúcias algures como perdidos na linguagem que nos seca sítios depois que o luar atravessava a fresta da janela surpresos eram cavalgados começavam a existência nos romances no vinil na estampa no ferrolho também nesta praia ainda deserta talvez fossem dessa carícia na face brinquedos sérios quando falavas baixo dentro da casa porque dorme bem nosso filho

desejado num silêncio ainda hoje percuta ânsia intervalada nudez na casa dos pais…

 

 

 

 

 


16

CRÓNICA

 

eu numa adivinhação solidária — meu pai impregnado de terra quase a colarem-lhe por cima as cotas matemáticas os cavaletes distorcidos os papeis sedosos os livros de álgebra  — sem poder alcançar a distância da mão de minha mãe ver-lhe apenas os flancos nus debaixo da saia leve no ar um animal sem vento as frases sulcadas como torso da terra que lhe fez parir-me sentir-me correr entre estrelas no dia escuro do fumo das espingardas o sol nos arcos a juntar nomes embriagado mas fluido em pequenos espelhos a vacilar entre folhas ressequidas nas ruínas sem brancura o gérmen das caligrafias das escolas primárias dos liceus femininos das repartições do estado

- mãe, dá-me a mão a ti, por mim, eu por todos sou forte… tenho a fisga

nessa espuma ondulada de perfume estranho a mão de minha mãe longe cada vez mais incandescente sob as cúpulas dos embondeiros a minha irmã a bater a mukua no tronco grosso ignorando a aflição estropiada a rezar o terço de lábio rasgado o sangue solto na pronúncia

- teremos um dia a maravilha do amor mas também a água dos rios e oceanos vibra depois verão que as pétalas não secarão como as nossas lágrimas ao vento são resquícios turvados

eu a imitar nas silhuetas das mãos do meu avô António uma corda ou âncora para alcançar a mão de minha mãe ali perto mas longe fugindo-me da infância depois repousar nos relâmpagos das espingardas o anjo que não sou e que tenho um no quarto, sabias avô António? sabias que volta e meia aparecia no meu quarto um anjo curvado a espreitar a minha caixinha de sombras entre os dedos, essas, sim avô, que fazias nas tuas mãos até me enlevares no silêncio do sono ou às abóbadas num cesto de sedas numa metamorfose ou enigma que faziam surgir raparigas num sopro numa indolência repetida da brisa marítima a minha irmã, lembras, dentro de dois mundos o meu pai no amparo da fluência profissional exagerado tu a tocar o mesmo acorde de há muito rouco na respiração mas que te lembrava o deambular da espuma marítima rosácea nas bochechas de minha avó tua esposa

 

- não sejas piegas

o meu avó em dificuldades para traçar a castidade da pomba através da luz que soprava-lhe nos dedos mas eu adivinhá-la brilhante voluptuosa a desenhar no voo uma dedicatória de idioma com varandins, com pétalas frescas nas gotículas da água no regador que minha irmã pode segurar como se a minha pomba fosse na vida adejar serena obrigações dos brinquedos arrumados que o beijo respeitador do anjo curvado não visitou não espiou por ela ser um bem para mim que nas asas ainda me leva a corda ou âncora para me socorrer na mão de minha mãe puxá-la de modo a ter leveza entre os canos das espingardas

- a pomba é sempre o bem, meu neto...

Eu não lembro quem mo ofereceu e ele é breve como o amor o que pensamos dele transcendente, irrepetível, sentimos sempre carência muito pessoal íntima. Sei que um dia só viverei não sei como preenchê-lo assim na velhice a olhar só o momento de agora pouca ternura do momento que fomos a esquecer lentamente esse voo deslumbrado no rumor do mundo esse truncar de dedos afoitos na silhueta bailada de figuras chinesas a embalsamarem geometrias toscas na imitação do sorriso sei que guardei o bem sempre na caixinha pintada por fora e não sei de mim nesse silêncio das gaivotas que saem de arcas quando o anjo aparece dos olhos de minha mãe depois apaga-se e a minha caixinha resiste.  

“...eu a imitar nas silhuetas das mãos do meu avô António uma corda ou âncora para alcançar a mão de minha

mãe ali perto mas longe fugindo-me da infância depois repousar nos relâmpagos das

 espingardas o anjo que não sou e que tenho um no quarto, sabias avô António? sabias que volta e meia aparecia no meu quarto um anjo curvado a espreitar a minha caixinha de sombras entre os dedos…”

Paço de Arcos, Novembro 2008

 

Conchas, búzios e areias

Pertenço a quê mãe? Tiraram-me a pomba! logo a mim que nunca fui à guerra e vi mortos. Quem morreu? Eles? Que nomes foram, tinham? Morri eu mãe... e devagar, ainda continuo a morrer, devagarinho, mas pertenço a quê mãe? Mãe, tiraram-me a pomba até a sombra do meio dia na tua silhueta, sobre ti, no largo da Vila Alice esvoaçavas entre tiros a minha garganta no sufoco querer dizer mais alto que eu modelado por nomes na nudez de me sentir filho um anjo

- mãe, dá-lhes com a minha fisga, toma, a pedra ideal está carregada diz que eu sou daqui dá-lhes do que sou na minha terra

num sufoco despido carcomido na manga babada, eu deleitado no abandono da trotineta a correr para os braços do meu avô António a respirar pelo peito dentro no delírio da doença aveludada majestosa infiel reles silenciosa

- olha avô, andam aos tiros, vi o meu amigo Jaime das mãos saía fogo, e a

minha mãe vem trôpega num passo que não nos alcança... ali, na barroca da esquina, ela vem com as compras em sacos e são pesados, mãe... atormenta-os

com a fisga... não é avô António?         ( e se pertenço a ti vou saber e se pertenço a quem vou buscar ) nesta trivial miséria agora que antes foi alegria mas agora agonia também ver o meu pai esvair-se no escritório a traçar de cabeça cabisbaixa cotas topográficas perdendo a vida nelas a trancar um futuro e em gritos nas mãos o esquadro o compasso a mina que pedia afiador num grito altivo mais negro

- não entrem... não vou ainda, o bilhete do avião não quero saber esperem sou desta terra os meus pais a nossa felicidade os animais e o pôr do sol, essa merda da guerra que estanque, esta terra dá tudo calem-se, não... 

 

 

 


15

CRÓNICA

 

Falta-nos tempo. A mim e às borboletas falta-nos avidez. Para a vida temos o nome comum no amor que baste. Guardamo-lo do frio da inveja no silêncio do sangue num cantinho com acordes de astros como na porta que abria para ouvir as histórias do enamoramento dos meus avós. Em mim sentidas todas com claridade ora clarões de baunilha na voz do meu avô a descrever as coisas. Para mim a porta aberta para o mar na folhagem das pálpebras da minha avó no silêncio inclinada a pensar o que ardia na fotografia tirada em baixo da ponte da Arrábida. Eu a ver da porta o mar

precedido com toada de baunilha na voz do meu avô. Uma voz pautada

porque submersa nas águas da Corimba. Assim em pequenote aprendi desejar palavras num torvelinho sigiloso. Nelas inacabado ele e eu como é a espuma do mar. Nesses momentos sentia-me invulnerável. De cada vez que o meu avô dizia que amava a minha avó nas histórias sentia-me com a identidade do vento, um rumor de sombra a beijar a mão de uma donzela, um caju no tropel dos lábios a sugarem. Desde pequenote queria chorar com as palavras e o meu avô nunca conseguiu extinguir isso. Ele antes deu-me a paz do pão chorado que elas podem traduzir. Ele ia ao meu leito pela manhãzinha tocar-me o deserto dos ombros. Alçava-me rápido depois pedia-lhe um Pai Natal. Ou mais um boneco índio ou cowboy para a colecção. Íamos juntos à padaria da Maianga. O meu avó dava-me é pão fresco aromático na beira do lago com peixinhos verdadeiros contra os meus apoquentes. Sentia ser terapia que avizinhava o Natal dos meus sonhos, pelos seus dedos a retalhá-lo. Mesmo na cacimba buscávamos o pão imerso de azul. Perguntava-lhe se não tinha espuma do mar. Eu tentava exprimir as visitas à minha prima da Vila Clotilde ela tinha sempre a casa do meu tio Alberto pintada a música do Gilbert Becaud, do Salvator Ádamo a cantar «Tombe la neige» sentia por dentro efémera cadência da vida num fio. Que lhe baste, meu avô, dizer como tu saber nas palavras a baunilha que tive vergonha de mim na visita a meu Pai. Chorei para dentro sem ousar chorar para fora na aflição não poder arrancar-lhe o pedaço de terra da sua terra natal que a prima Ana lhe revestiu as mãos para irmos juntos fazer o mar da Corimba nele de barco à vela tu com a gadelha talhada de tanto sol eu, pequenito na proa 

 

como teu filho, junto do chimpanzé amigo Tobias bolinarmos em direcção ao sopro a alma conseguir dizer que fiz os anos todos do liceu que segurei bem no lápis para ser assertivo querer-me completar que a letra, ainda hoje disforme, não ousou passar as margens que mantive limpas nos cadernos também não cruzei as pernas por debaixo da mesa e não faltei a aulas para ler poesia, nem agora, que desejo estar contigo consigo esconder os panfletos e o boletim escolar sobre política o enclave do xadrez, da poesia, onde redigia pensamentos contra os fortes que nos pisavam, como hoje, erva fossemos continuar como sê-lo. Num enlace que à muito não via, a peregrinação do teu silêncio em

mim, deleite, sombras sobradas no tropel disperso da vida que faz marulho crivado de cicatrizes nesnesse enlace

 onde estás na flor que ofereces ela incompleta porque nela não estou. Nela apenas silvos réstia de saliva a desfivelar o ar como beijo uma carícia com o pronuncio onde saem as palavras, a boca, que sempre te amei e faz surgi-las admoestadas na força de voarmos silenciosos dentro da força de falarmos sem palavras como a quietude própria dos horizontes. Sabes que tenho uma janela na minha casa onde espreito solidões. Tu a correres neste Outono falso a disfarçar no amor. Não se corre assim para ele a dizer-te da janela do lado de dentro na casa do meu silêncio os meus defuntos… corre, corre para o horizonte é nele que estou. A afagar o vidro da janela. O Outono de poucas flores principia a palidez.

 

nesses momentos sentia-me invulnerável. De cada vez que o meu avô dizia que amava a minha avó nas histórias sentia-me com a identidade do vento, um rumor de sombra a beijar a mão de uma donzela, um caju no tropel dos lábios a sugarem.”

  

Paço de Arcos, Outubro 2008

Conchas, búzios e areias

Num enlace que não via à muito como que nascida fresca a pensar depois do duche que me secou por fora, a pensar que tenho silêncio um compasso triste ou sou dilacerada por ele renovada mas a revolta cá dentro sim... tu, contra ti, ires contido nas pingarias tresmalhadas deste Outono afoito no disfarce correres com a flor na mão depois beijares quem amas nesse frémito quase animal de mãos na

nuca dela a amortalhar a pobre flor de sempre que ofereces eu a ver-te da janela, um deus sabe, os argumentos

reencarnados na solidão a remorder-me tanto como a morte de meu avô, como borboleta que voluteia incansável o viver de muito do pouco no que lhe sobra no voo silencioso mas malabarista. E eu a guardar angustias. Em mim para mim ver-me na pele fora de mim a ressequir, lenta, querer sentir a vida diferente chorar alegre triste no espelho que beijo não ser correspondida, eu que até aceno a gaivotas até falo aos idosos no jardim e tu sempre dentro de mim. É tempo de saberes a felicidade em mim é rudimentar em poucas consoantes sempre à beira das miríades silenciosas que só os barcos atravessam, mas no princípio dela, nela, cabes inteiro em inocência que não se repete. Queria caberes em mim. É tempo para saberes ser feliz é fácil, é réstia de coragem basta-lhe não querer muito mas sempre com nomes de avidez moçoila escondida atrás da janela, assim, como te vejo, no bairro. A minha casa tem uma janela onde espreito solidões. Tu sabes. Acredito que não esqueças. A Joana maluca em Luanda desdobrava o turbante escancarava as pernas no corpo disforme deitava nele as conchas os búzios e palmava um niquinho de terra para os misturar. Sei que era feliz. O mundo dela nele nada lhe devia. Sabes, eu não tenho fasquia de borboleta. Mas sabes, nunca soube viver muito como elas que não se admoestam.

 

 

 


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CRÓNICA

 

mar antes da consulta ao dentista vê-las repicar saltitantes exaltadas eu extasiado com os peixinhos na superfície calma…

Depois ia ao consultório dentário do senhor doutor Zeferino escancarar a boca em lágrimas nas faces o aconchego ausente da mão de minha mãe eu firme a desejar atirar só as pedritas mas agora da varanda na falésia da casa do senhor doutor no

Fetungo de Belas onde fui uma vez com a Armandina e o Romão assim Tios para mim que me estimavam e davam doces

ambos apaixonados por filmar tudo.

Mas neste país português que perde a infância ninguém parece filmá-lo nos trejeitos traquinas nos brinquedos neste país parco em prados o sorriso ingénuo infantil escasseia esquivo talvez entre silvas em que sai arranhado de ferida diferente ou demasiada asséptica, tenho um silêncio inconformado, talvez amor em dar ainda que disforme, talvez uma flor nas mãos, um aceno nelas a cabeça concordante talvez seja nesse silêncio que nos chora por dentro fazer-me de silêncio o que amo como celibato franqueado a esbracejar desejo antes de quedar-me na paixão lamecha na brilhantina no cabelo depois sacudir ofuscados trapinhos de madrepérolas afagados em ângulos embebidos em Chanel. Sem dúvida quedo-me frequentemente na ignorância. Geralmente quando ocorre nisso faço bússola depois os pontos cardeais oscilam noutras vezes baralhados não me norteiam já aí nem procuro o sol mas a claridade. È dela que tenho sempre ânsia num estado sôfrego por ela corro a abrir tudo em casa a pensar se é da rua que vem a palavra no bulício que veste as gentes nos seus gestos as convicções os sonhos os seus amores, se ela é clara para eu a amar. Amar-lhe a claridade como a dos palhaços mas sempre com medo que o mundo estremeça e  nele não caber uma incontinência moral que brote além o que se pense brote sempre na moral no físico um gesto

 

 

sem incómodo uma carícia sem esforço um beijo num abraço como trejeito aliviado sempre alívio no que penso no que faço a pensar fazê-lo assim igual a mim sem outros pensarem em tal como se juízo inconformado relativo se tratasse. Dou comigo a pensar na importância do silêncio quando a ignorância me assola. No silêncio das suas palavras. Penso afinal que

o silêncio inconformado atalhado no liceu não é o mesmo sentido já adulto maduro… neste sentimo-nos capazes a trepar à figueira à amoreira e oferecer nem que seja o galho deformado pela raiz pelo vento em silêncio depois perguntar pelo beijo… esse que recordamos no fingimento sem maleitas gingão afoito na surpresa porque o dizemos a pensar desejá-lo como fazer neste país onde vejo uma flor desabrochar e sorrio onde vejo a velhice deformada em odores e choro onde vejo quase sempre esse silêncio num país que talha a alma põe-na sofrida melancólica ténue esquiva a predispor-se ser um lugar enjeitado, estreito imoral

ocasional porque sobrevivente solitário mas revestido de maneirismos de esperteza saloia com argumentos bacocos de arrotos cíclicos azedados a alho coentros e rabanetes e mais fedores secretos que geralmente a petulância ou sobranceria estampam na sua vulgaridade de cagança por serem desmesuradamente seus filhos. 

De qualquer modo o que apetece é morder as palavras com elas fazer tranças bonitas às mulheres e andarmos felizes pelo mundo mesmo sabendo-nos ignorantes. Nisso pouca diferença fazemos. Somos todos até alguém conseguir a trança perfeita. Conseguir um país trançado, dentro dele.

 

 

Paço de Arcos, Outubro 2008

 

 

 

 

 

Conchas, búzios e areias

Dá gozo saber-me ignorante mas vivaz de coisas na vida nos artefactos a transbordar-me inventiva maliciosa em vira e vira e toca que trás nela também a morte o alento a desmesura a solidão o encanto maravilhoso... E eu a pensar não quedar-me! Egoísta, ver-me só nos afectos incontidos! Mas quieto, angélico, como menino de berço na tranquila quietude e lassidão somente ignorante dos sentidos. Assim a vida me tem gladiado. Depois, ainda infantil, adorar ir ao circo ver os palhaços em especial os palhaços (que ternura por eles nutro…) sei hoje que nisso já me quedava! Especialmente quando um palhaço chorava

. O mundo parecia estremecer. Ignorante, estremecia também como hoje me penso assumido sempre só 

no quesou, no que não tem afectos nisso surge-me erupção cutânea, a realidade abrupta em comezinha lamecha de faz de contas e sem dúvidas perseguir-me assertiva na sua aura altiva sobranceira, aí, dou-lhe logo com um afecto tal palmada vigorosa nos tempos de escola primária. Dá-me gozo saber-me ignorante logo neste país em caminho escangalhado em algo contorcido senão piegas impregnado de medos do escuro de corredores e pátios. Este país ausente em afectos este país na teimosia a adiar o sorriso a alvorada do voluntário afectuoso e também teimoso em adiar o mar entretido no escárnio de espelhos polidos este país de algo numa merda bem dentro dela e bem remexido nem cheira a merda remexida a Cais das Colinas lisboeta como não cheira à Mutamba luandense abraçada à marginal de onde atirava pedras lisas ao

 

 


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CRÓNICA

 

amigo, conhecedor até aos ossos de noites deleitosas na solidão a fazer o bem comunitário agora noite cerrada na Charneca da Caparica descalçar pantufas para vir contar estrelas falarmos de tanto vermo-nos agora 

depois de anos no silêncio na distância obrigada como degredo prazenteiro nas pedras e nós com sentimentos esvaídos nos dedos tal areia da praia num crepúsculo ensolarado

- é Verão caramba! agora estudam um invento que a  inteligência germina, é metida em canos circulares como apegos para recriar partículas e explicar como tudo surgiu... este universo... depois de um tremor, afinal violento para fazer vida do que somos e hoje as crianças dele na morte lenta escassa na vida dessas partículas famigeradas que deram pobreza desamparo de futuro em agonia sem  por ela como somos para ela talvez até o que não sabemos ser nela nem sequer o que alguma vez fomos por tê-la  e por aí em diante...

- sim, digo eu, assim amigo, querem explicar numa tentativa o que seremos no que fomos de que há muito contornos de fantasmas em preces de mudança...

 - mas hoje finalmente temos o abraço o conforto que a distância não consegue descolorar nem pouco transgredir

- é essa a medida do universo talvez a merda com razões no que sempre fomos

feitos nas partículas em uníssono?

eu sem argumentos feliz do reencontro nada emparedado entre homens como o de Zurique com outro velho amigo o Beja sindicalista e o irmão Luís impulsionador de uma rádio local para a comunidade eu de mansinho feliz a lembrá-los na Charneca

é como o meu tio padrinho enfermeiro Alberto em Luanda ele fez-me auto-transfusões do sangue por ser um miúdo de furúnculos reincidentes (eu estava sempre empoleirado nas mangueiras

descalço a varrer a infância com os correligionários negros) com ele nunca conheci a alegria de ver um filme depois eu a

 

questioná-lo sobre o advir na  argumentação pois o intervalo nos filmes é como o amor mal feito ou de mau feitio, tudo adiado, interrogado expectante, sofrível no que pecaminoso contém ou desconhecemos por isso uma partícula indecifrável um isco incómodo

- isso das partículas que se lixe quero é o ganho que nelas existam para vos ver para abraçar para recordar tanta coisa boa sempre com presente

Na Charneca da Caparica a noite cerrava a debanda dos clientes do Café onde o Manuel eu e o António nos aportamos. Fui feliz nesse reencontro com um homem destes.

Ele pensa como eu que nada se ganha sem perder. Nada se perde sem ter sido ganho foi o nosso diálogo a falar de tantos em tanto pouco tempo num espaço que se escoava lento no céu o berrante azul com a luz das estrelas mais o silêncio no que afinal não dissemos a falar dele que ensina se despede

- foi bonito o que fizemos todos por todos isso da Federação os Centros as Comissões de Pais os Sindicatos na Suíça dos anos 90 foi lindo…

- fraterno amigo...nunca saberemos o tamanho da partícula da amizade... plausível é sabermos, do pé para a mão, que ela não soma tendencialmente mas subtrai isso se inverter tal premissa e considerar que a amizade afinal é juntar sem pó de partículas sem ínfimo angulado o que entendemos quando comunicamos quando afagamos, quando vemos, quando discordamos ou protelamos    

- eu sei companheiro disso tudo como sei que assisto a uma filha que namora depois da faculdade (tu a fazeres castelos no ar para o teu neto...) e outra filha que respeita o horário solar… ainda regressa a casa quando o crepúsculo reivindica no corpo talvez na alma o afecto diferenciado talvez mais dependente de coisas apresentadas já feitas de rastos...

...é rapaz sei, presumo saudável dar-te trabalho correres fazeres trejeitos com os brinquedos...no ar as mãos em silêncio tudo igual em partículas...

 

Paço de Arcos, Setembro 2008

Conchas, búzios e areias

 

Há muito que não te via! Depois do tempo pouco passar do espanto rugoso firme na brancura nos cabelos em que te encontro fui para meu ninho a correr alegre rever os cadernos da escola primária e das folhas saltaram pássaros frescos também bonecos nos desenhos contorcidos em cores berrantes

 

e sempre o mar…infatigável teimoso  no fim das folhas no azul a escudar peixes e algas mas escorreito na

mesa, no quarto, no hálito até às palavras. Será do visco das mangueiras na

minha infância que fraco aguado não cola? os pássaros, agora, esvoaçam sabem bem o norte e o sul a cadência das nuvens cheias de água o tremor na terra quando a carícia humana é abrupta será da verdura ressequida do trevo descolorado na página oitenta e dois da Geografia que a Alcia albina me ofereceu como prova do amor nos doze anos?  (não me vejo suportar tanta nostalgia tanto sonho tanta melancolia...em tantos anos). Eu, que procuro sempre as pessoas que amo respeito considero, geralmente nisso sinto faltar-me asas num grito contido nas vísceras por isso eles e elas terão esse grito contido como eu e nas vísceras?

há muito que não te via e agora? que fazer de tanto já feito por ti por mim e outros tantos cúmplices a fazer coisas

- apenas mais velhos meu caro… sou avô

- é rapaz sei, presumo saudável dar-te trabalho correres fazeres trejeitos com os brinquedos… no ar as mãos em silêncio...

- é criança afável quero fazer crescê-lo ver tudo nisso nele de ser diferente com coisas que o mundo tem coisas assim... 

eu a pensar é anormal um cinquentão  empertigar um sexagenário, sempre

 

 

 


12

CRÓNICA

 

relva na calçada do parque as vénias as educadas em cumprimento a famílias valoradas essas coisas esquisitas da tradição que sisma perdurar como esquizofrenia quase contagiante, íamos  varejar sonhos quereres de projectos que sabíamos ter direito na

praia no mar no pontão que estreita laivos salgados nas águas

que levaram em cima homens sábios esforçados, na ignorância íamos de cada vez que acreditávamos no amor molhar pés depois erguermos os braços para o sol em descida

- somos analfabetos amor, teimo dizer nas palavras mas elas escritas... sim

- teimas, sei, mas olha é bonito andarmos por aqui, o que queres… a família tem obediências e o busto no jardim é familiar directo, deu figura à família percebes… orgulho a preservar um misto

- o Patrão Lopes espreita o mar sempre virado para lá nos olhos nas rugas tudo numa pedra como se lhe pesou o mar...

- teimoso, sabes que dizem que ele disse ainda em vida bastar-lhe a alegria do que fez? até devolveu medalhas tiradas do peito no ultimato inglês…sem arrogância… um gesto silencioso no apego do mar que sabe-se agora também ser melodioso, um mar de mulheres em calmaria como nas carícias e ele em remos e vapor

eu a pensar nisso era Angola? eu de lá tu tão bonita... cabelos impregnados no sal das tuas raízes afinal até ao fim da coluna da tua família e a política do mapa cor de rosa... os  ingleses… a política enfezada esses imperativos sem outra qualidade que não vejo de caras nos ingleses

- o Patrão Lopes devolveu condecorações num protesto no peito nessa prepotência   

o andor do padroeiro a baloiçar abeira-se dos barcos

 

engalanados outros num silêncio pobre o pároco benze madeiras a flutuarem agora aportadas calmas na enseada com  águas que deixam ver pedras no fundo até conchinhas atiradas à areia mas a banda musical entoa fanfarras gritadas nos instrumentos, as senhoras mais próximas do Senhor Jesus dos Navegantes de cruzes nas mãos sobre o peito não trajam rigor nem adornos nas vestes a escudar alegria interior mais que júbilo em obediência ao destino nas faces limpas de maresia

- o destino foi destes homens… hoje o que temos? o destino neles de humilde tão grande hoje nós não sabermos o que valer na humildade tanta alma

- dá-me o braço amor...

enquanto ladeávamos o Patrão Lopes rumo à praia nova passar junto à tenda dos lençóis baratos em gritos roucos da loira aguerrida a dobrar e desdobrar a

geometria de panos grita com alma na prece do money e flanelas e sarjas    

Leio a tua carta. Estás em Sacavém ou essa coisa confusa de Bobadela na tua carta escreves isto que revelo aos amigos e a feira prossegue...

não te melindres, vou a caminho.

“ainda há sol... sabes aqui nesta terra com mar algo se salga como lágrimas ou tufão que emerge dos musseques antigos da tua terra que não conheço e é como se lá estivesse… sei amor, é de tanto espaço suficiente para teres a infância e a pessoa que és… vamos namorar, dizer do que queremos a partir daqui e eu sou” 

 

Paço de Arcos, Setembro de 2008

Conchas, búzios e areias

 

A escrita sempre rogou-me pragas. Não tanto no sentimento nela perdido...talvez infantil. Difícil é escrevê-lo inteiro nela porque é fêmea cintada com tinta vaidosa na geometria alastrada a fazer amar odiar-se reconhecer traições, exige de melhor o que não atinge naquilo que

eu julgava ser dentro nela um mimo ser-me, educar-me, dizer-me adulto sem estrelas saídas de

livros e atirar  aos amigos correligionários no carrossel alegrado de luzes coloridas tu e eu, baloiçados com o mar perto a roçar  pés nos altos e baixos dos solavancos metálicos no baloiçar infantil espreitar a ponte sobre o Tejo ouvir os chamamentos em berrarias e pregões soltos que vendem bijutarias girafas de pescoço curto gargantilhas oxidadas de metal rasca mantas de sisal crucifixos de plástico numismática principesca polida em cima da tábua na banca do galante Fonseca de lenço de seda ao pescoço e boca no charuto com gadelhas branqueadas nos gestos largos a vociferar dentro da transpiração na gordura que o corpo aguenta e expele

- comprem o reinado mais as princesas... El Rei não está desfigurado comprem... não vai nu nem elas, moedas desgastadas só… comprem as polidas já reluzem...   

na festa anual a honrar o Senhor Jesus dos Navegantes em Paço de Arcos nos Agostos de agonia que o mar também trás ou calmaria que leva ao Bugio ele o padroeiro dos pescadores nativos e forasteiros nela sinto a escrita incompleta que me não recebeu traçar rumo à praia com o braço por cima dos ombros da minha  mulher a sorrir

íamos para lá de cada vez que a esperança na vida pretendida fazer nisso a vida que sempre tem o lugar primeiro já fartos da confusão dos cheiros a farófias churros farturas do azeite das bifanas do sovaco parceiro de cacos de vidro desgarrados na

 

 

 


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CRÓNICA

 

espelhos de tantos não sinto vaidade no que vivo, não sinto prazer no que raciocino, nem palavras no que  ignoro porque choro por dentro não se vê e não tenho prazer e sinto-o. Em todos os cemitérios os pássaros persistem as sombras das árvores persistem a cal branca dos muros persistem o abandono de muitos que foram quem fossem persistem as cruzes persistem silhuetas negras persistem  tacteando flores frescas borrifadas na água fria em gestos mecanizados talvez intemporais em rostos rugosos trémulos abanando a cabeça em descontínuo desconforto. Um dos coveiros fuma, o João, outro, o Aldo, tem por hábito ser a última pessoa a colocar uma flor solitária, inodora ou quase, sem verdura, depois do monte em terra composto a cobrir pessoas desconhecidas como afago penitente também silencioso

solitário numa profissão dentro e fora numa pá  advertiu-me

- sempre que obrigações te tragam a cemitérios, desembucha… eles, aí dentro, são estrelas que aparecem no céu, mas desembucha, faz as bochechas assim… grandes... de ar que vem do peito depois chora tudo, tudo... o céu é sempre outro...

eu desembucho sim, tudo, sim, para fora dentro... desembucho o choro miúdo há muito sempre contido na perda do mundo da brincadeira desgarrada com algodão doce na mão comprado na feira ordinária e entrar em cemitérios onde pessoas dormem sós eu com o algodão doce em riste e com doçura nos lábios soletrar  letras com que as camas deles são decoradas. Afinal somos imagem de nós incapazes em ver e coragem suficiente para ser como o Aldo o último dos coveiros que oferece uma flor, só, contra a terra, e que rasga depois

 

 

 

de tudo de tantos depois de sabermos não ser primeiros o Aldo, afinal, na  realidade própria dum instante colectivo—como disse Santo Agostinho: a eternidade e um instante é a mesma coisa - vejo-me não saber onde ela sobrepor-se ao homem com um bouquet de algodão doce a soletrar embuchado nomes de letras bonitas num instante de recordações julgo anteriores a céus e sois e logo nestes espelhos meus diante de mim, só meus.

Regresso sempre ao sul para estar com eles virados a sul como se rogassem sol sôfregos incompletos por baixo de tanto que pesa … a terra deveria servir só para fazer nascer e negar-se acolher lágrimas

- as pessoas queridas deviam andar sempre connosco trazermo-las numa opinião num conselho num desgosto numa alegria deviam estar sempre à mão mesmo a baloiçar raquíticos finos

fumo o cigarro mas o Aldo não fuma ouve-me a miúdo comento o valor da profissão e falo da compaixão se é iletrada sem afago de livros e coisas assim muitos seres...

se eu fosse coveiro camarário Aldo fazia isso de trazer sempre a última flor para eles mas a terra por cima...                                          

havias de sentir-lhe o cheiro! é terra magoada fervilha remexida com delírios secretos sofríveis remexes tudo o rosto em vénia a salpicá-la com a pá o rosto caído nela como a ceifa ou apanha de...eles não vão

fumo o meu cigarro envergonhado sou ignorante à espera que a terra respire os que amamos os que sem querer mudaram a morada com mais jardins com flores salpicadas

porque escolhem esta felicidade?  

Fume amigo, há sempre flores!

Ah! a terra pode esperar, é isso...

“Mãe! As estrelas estão a mentir. Luzem quando mentem. Mentem quando luzem. Estão a luzir, ou mentem?

Já ia a cuspir para o céu!” 

- Almada Negreiros

( nos verões que acontecem todos depois das flores todas frágeis deleitosas todas que não nascem todas do vento e  frio sempre fui a cemitérios... Por lá tenho estrelas que luzem lá mas evito cuspir na terra porque tem letras que só as estrelas ensinam a ler

 

Paço de Arcos, Agosto 2008

Conchas, búzios e areias

“… o criador do espelho envenenou a alma humana.” F. Pessoa in Livro do Desassossego

Sempre que obrigações me levam a cemitérios sinto uma mão apertar-me o crânio espremê-lo encolher-me nele ideias desbotadas os olhos direitos ao céu. Depois lá dentro, fitam lápides. Como se definissem espírito visual entre ramagens e passarada. Umas surgem pomposas pelo escopo que as adornou banindo-lhes excesso em lâminas aguçadas que ferem outras, flutuantes nas palavras, nos dizeres nomes esquisitos, apelidos com memórias de uma vida a usurpar-nos sensações, pingos húmidos lembram abdicações entregues desoladas mas com dignidade. Os cemitérios definitivamente são lugares de felicidades fingidas em jardins de flores artificias com pó desprezado que lágrimas impotentes não fertilizam. São um eu posterior ao que sinto. Sou eu nele já representado e mesmo vestido de branco com um torrãozinho de terra da minha terra entre mãos. Apenas dedos trançados sobre o peito que foi sempre mole.  Dou comigo no silêncio encolhido no que fui sentir hinos familiares de todos, bátega a bátega, vêem-me absurdos tão nítidos, os dedos percorrem hospedeiros mármores frios (até no verão esta pedra teima na frieza, raio)

- serei eu todos? diz-me… todos foram bons as frases gravadas nas pedras dizem disso da vida algumas fotos defuntas na pobreza a quem pertenceu, tenho respeito especial comovem-me as dedicatórias como se  morrer fosse fácil oferenda livre consciente por sabermo-nos a mais incómodos desfasados…

- há quem morra de solidão e desamparo não possa mergulhar as mãos no pomar depois lavá-las no riacho… há quem morra apenas na solidão sua surda somente...

estou sempre no silêncio. Demoro-me  sentado nele nalgum muro não infligir desrespeito por quem dorme porque sonha. Estou em frente a eles que  

 

 

 

 

 


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CRÓNICA

 

um pouco a bainha do vestido, sobes a altura, os joelhos ainda cativos sob pele ainda lisa mas as florezinhas em desalinho escorregam entram na água da Fontana di Treviolha, lindo… vê deslizam sobre as pequenitas ondas farfalhadas que provocamos descalços, olha amor, vê a luz do sol desce... arregaço bainhas e outros folhos na calça de linho lânguido na aflição das dobras para os barquinhos de papel. Sempre soube fazê-los perfeitos.

Quero vê-los boiar na Fontana di Trevi. Dar-lhes balanço suficiente para

rasgarem suaves na quilha frágil águas do guardião Neptuno. Vê-los em círculos nos remoinhos que a queda de água no ciclo estonteante permanente reflecte. Quero os meus barquinhos de papel! Ir neles eu vários saber da bolina e outros ventos na Fontana di Trevi. E à proa  saber primeiro que se avista terra e mulheres belas e árvores e arvoredo rasteiro ou miragem de deus no enlace fraterno com a humanidade toda e animais ferozes mansos. Quero os meus barquinhos de papel para ser feliz continuar a ser alegre mesmo descambado dentro desta fatiota catita dizer asneiras não saber sorrir para as câmaras… sabes amor, é essencial não rir-mos para as câmaras porque o essencial é saber-mos rir por nós e tu, esbelta criatura, nesse vestido és novamente a meninita frágil com os pés molhados no vestido de florezinhas que ora dele saem e retornam como se de amparo se tratasse. Sempre soube que trataste bem flores animais pessoas mas no vestido amor, como é possível as florezinhas avivarem e isso vejo, começa da cintura delgada… não penses mal, são os netos com a máquina de filmar... buscam “enquadramentos” onde caibamos  diferentes. Estás a ver, nós diferentes...Tu até sabes...o filme aqui rodado do tal Fellini com a

moça a banhar-se e o galã num frenético beijo, esse, sim…La Dolce Vita mas o 

 

 

teu vestido é mais belo amor  tem tudo dentro e com jardim por fora de pétalas voadoras depois recolhem fazem-se flores que se aconchegam...olha querido tens o chapéu de palha em banda endireita-o esquece a calvície as brancas ficam-te bem...

-deixa lá o chapéu Ana quero é os barquinhos entre tuas pernas, não ofusquem o tornozelo façam razia nelas e encontrem rumo… tens o vestido subido tão bonito nessas pernas...

-Avô...Avó, atenção…

não faças outra cara, deixa-a nas rugas bonitas bem situadas, olha os meus pés de galinha...o que te quero dizer é este básico amor  pobre, porvir no que dizemos sem sentido e o rosto não o diz, é desse que quero falar, sim, pobre, errante até contradiz-se mas o médico revelou-me não ser Alzheimer não te apoquentes, estamos bem, o esquecimento pode ser virtude, espécie cientifica de estudo e alegoria, sobre o que alguns não entendem, depois inventam narrativas de argumentos confusos, esses sim, protelam a

evidencia de não se gostar ser... mais velho ou raio que os partam...

PS- “...sem nada mais nada que dois corpos no movimento da carne e ossos, de consciência articulada em palavras e raciocínio coerente sentido de sentimento ambos dizem apenas que tudo é isto e mais com algo místico dentro que significará amor, loucura, cena perdulária, felicidade, no fim dizem amo-te, boca a boca, proferido entre os silêncios da cascata. Os olhos no olhar ficam teimosos em tudo...eles irão, nós ficamos… errei no papel, é fraco, mete água?”

Paço de Arcos, Agosto de 2008

 

Conchas, búzios e areias

Quando formos a Fontana di Trevi amor, levo a túlipa negra que te ofereci no parto que rasgaste o corpo para a nossa filha primeira. Levo-a igual mas  na lapela do casaco bege de linho amarrotado, e tu, penso não enganar-me, o vestido de tecido fino onde florescem florezinhas tricolores esbatidas sobre azul discreto suave ao sol e vento no que ficas esbelta hirta no que és mulher no que não queres e queres desejas renegas e condescendes. Mesmo se no céu couberem nuvens

mesmo

a existir uma nódoa ou falha na costura(tem tantos anos)assim linha

revelada em desvelo doutros devaneios antigos afáveis na macieza em que perdura. Quando formos a Fontana di Trevi talvez eu, talvez tu, já tremamos… mas prometo dar milho aos pombos... ou migalhas de pão que tenha no bolso da calça em rolo ensacado no plástico ruidoso amarrotado usado e de letras publicitárias contorcidas, tu sabes amor, disso sou capaz! Nos dedos hirtos, sem artroses, retê-lo, conservado digno na concha da palma da mão a fazer engodo aos bichos. Quando formos a Fontana di Trevi, eu sei amor, farás em tudo deleite supremo, superior à solidão passada e num singelo perfeito ser como é do feminino, especial em ti, um pronuncio esquivo  que nós homens somos pobres no entendimento, farás dos pés descalços na água de Trevi delícia enquanto a sombra do sol descende para encobrir esplanadas e surge aroma de pizas na variação de folhas secas aromáticas com trote moderno das Vespas o  frenético bulício dos gestos italianos em mímica ofuscada enquanto os nossos dorsos enlevam-se na sombra. Assim, só os pés dentro da água na Fontana di Trevi. Tu aligeiras

 

 


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CRÓNICA

 

Assim primário, com juízo petulante, arrogância galopada reduzida a excremento escoando-se no ralo comum entre tantos dejectos comuns periclitantes, saídos do recto profundo, de unicórnio obediente, em desfolho de cagalhão oprimido, seco, sem águas e aragens odoríficas e maneirismos viciados … o treino do nariz que é o olfacto, já não é o mesmo, (saudosas apaladada bifanas da rua do Arsenal, afável intemporal livraria Bertrand com cheiro de letras, fraterno indígena Baleizão em Luanda com gelados suculentos, exóticas orgânicas fêmeas águas das Quedas do Duque de Bragança, sapiente simetria de bosta composta nos campos de Thurgau com maçãs) hoje, respira-se diferente sem exercício de gosto. Tudo quase cheira quase ao mesmo as pessoas tendem num uníssono estúpido. Mas estúpido sou eu e as cuscas das vizinhas endógenas em qualquer

lugar, proliferam na pobreza do sonho, teimosas, desconhecem o gosto de uma onda atlântica

salgada na palma da mão  e salivada, de quando em vez, acarinhá-la, admiti-la  na pele que as cobre na languidez. Repreendem-me beatas deitadas no saco à porta do prédio (do lado de fora) condenam a falta de ar que têm mas, sapientes saloias, na arrumação do cagalhão viscoso, ou aprumado de seco, defecado por leõezinhos domesticados que ladram e se pavoneiam ladrilho fora, numa mija incontinente ordinariamente ofuscante de  jantes dos automóveis, de abanicos caudais misturados com arreganhos dentais elas, aprumadas na coluna, qual directriz erecta da trela, qual bússola descambada, vagueiam entre o dia madrugador e ausência de prelúdio sentido de ruído galináceo em despique frenético no solo alcatroado e cimentado que todos alimenta no excesso e na precariedade. Eu sonho com um bairro diferente. Ideal ou conforme, ou apenas no que escrevo não existir no desassombro e deslumbramento, somente

 

mutação do que vive a ilusão só assim tudo muda. Sempre  me  foi familiar desde pequeno. Hoje sei que é perpétua. Não passa. Não tem emenda. As pessoas passam. Infelizmente algumas. Sempre nisso é desconforto. Intervalo  que em nós soçobra desconhecedores do abismo na evocação reles da vida  trazer o mundo pela trela agarrada a nós, sós, mais ninguém, esquecer o prelúdio fantástico da nossa sonata íntima, frágil, decrépita, esfumada, incompleta abrutalhada, finita, igualitária no que o prazer conduz nela em fazermo-nos.

Até nas farmácias do bairro o aborrecimento estende-se qual cobra, em fila sem nexo, de braços e rostos sem pele, quando pergunto pela camisa de Vénus que não faz filhos, sou logo questionado sobre o tamanho e eu, perplexo, em arredio emocionado, tento estender a mão a explicar no gesto o momento de ausência… aborrecimento. De todos os tamanhos digo sempre ser o maior depois vem a sobra da  coisa em pouca pele e arreganho musculado pulsante pouco motivado na malícia farmacêutica latina… porque raio tenho de identificar o meu

pénis? quando lhes pergunto, as rosáceas ficam

 

 proeminentes sinto-as consoladas desconcertadamente  na incógnita animal que escuda casulo ou conforto descartável, amovível, por ser pénis, vagina e outros demais que têm desconcerto laborioso sobre a certeza em fazer coisas...

Usufruamos alegres o que somos ingénuos, que nos faz feliz, seja a luzita ténue entre almofadas,  crepúsculo musculado que diz amo-te, o sacrifício, o farrapo a cobrir a alma na  ausência de prelúdio romântico na luta replicada, agreste, quase sem fim do dia enfadonho, tudo, como sonho na claridade do dia, ser  solitário, feliz, em tentar sê-lo solidário em tudo.

Paço de Arcos, Julho de 2008

Conchas, búzios e areias

Vivo num bairro de regra com  rega portuguesa. Penso eu, no convívio com desconhecidos desiguais a mim, saber dos meus diferentes, na partilha ruidosa de gatos, pássaros, orgasmos

vespertinos, árvores entre outras parcas na verdura e desejos toldados vislumbro rolas, melros,

pardais, pombos esfarelados de chumbo, em blocos betonados com maneirismo uniforme de gosto reles desenxabido, num relevo topográfico privilegiado, impregnado de maresia e ventos saudáveis, onde a rebeldia atlântica do beijo desconjuntado do Tejo universal com o Atlântico mítico, filho fátuo pátrio na farta alquimia rebelde serena se deixa espreitar conforme luas e lendas e relatos que conquistaram Lisboa e moças e moçoilos e varinas e cauteleiros e amoladores e alfarrabistas e gentios inteligentes e pintores, poetas com lua na boca céu debaixo do braço, pessoas sábias no travo da ginjinha, ardinas lunáticos debaixo de estrelas dormentes, engraxadores no brilho solar meridiano que encrostam, nas calçadas, vaidades e decências a quem as pisam. Gostava eu era habitar um bairro alquímico, magia fazedora de pão e alento, dignamente odorado por pétalas adornadas a ordenar homens e mulheres o fuso horário das solidões, que fosse degenerando em grito alegre com menos pranto. Desejo só para mim um bairro que exista na hora da solidão institucionalizada, admitida comunitariamente, ser pertença da colectividade, inequívoco, sem apelo ao egoísmo nem agravo à altivez, nem aparelho censório da inteligência, nem que se vociferasse  paixões ou desalinhos  sociais obrigados a sentimento pacóvio e compaixão. 

 

 

 

 

 


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CRÓNICA

 

deparo-me  no  dilema  do beijo na piscina do Nuno Álvares, do Clube Náutico na baía de Luanda,  na tarde do remo da mocidade que o Estado monopolizava e os pais, pelo menos os meus,  a ranger dentes, ela, amou-me verdadeiramente e olha, na ilha do Mussulo, quando a malta rumava para lá de Luanda e nos beijávamos debaixo dos coqueiros olhávamos Luanda  noutra forma… agora, ela, a Netita, vem-me nas palavras que quero escrever disforme procurar outro, um corpulento de ombros alargados pelos ossos e quando abre a boca, népia, só rugido insignificante ficamos atónitos  eu não…mergulho logo no silêncio

das conchas da alma a disfarçar sentimento nas artimanhas  que inventaram em seu redor

 mais a baía a trazer  e levar águas na calmaria a que  devemos obediência no sumo de coco fresco

 

sei bem pá, curtes o que não deves... ou  pensas ser verdadeiro  ninguém mudar... infelizmente a armadilha é essa merda em que  nos transformamos por vezes esquecer  as pedritas lisas rasantes nas águas da baía de Luanda e afinal, olhas a Netita, eu sei, ainda a dizeres o poema inacabado que falava  “ … alma sedenta de solidão de beijos…”  assim, amigo, pergunto-te pelas flores e  o cão  já dorme contigo… não te culpo amar o próximo como homem como tu,  culpo-me não enxergar no que nisso existe de extraordinário ou irregular ou metafísico ou diferente ao egoísmo disforme a possuir um sexo ou transcendente em saber em quem gastar até às entranhas o afecto, o carinho, a comunhão descomprometida e o afável sentido único de sabermo-nos vivos e  precisar  sempre  de  outrem diferente de nós nesta reminiscência latente que chamo sonho sem sentido. Vejo o Tejo no Bugio nas claridades primeiras que o verão exprime enquanto apalado a torrada e o fervilhante café com leite e astúcia do cérebro aqui em frente dou-me no duelo entre os dois, a Netita, grávida do garanhão corpulento, de ombros largos, que só  dizia merda no romance do Alfredo  e este  a afagar o cão e  sexo  igual ao dele  dizer-se feliz e rega sempre as  

 

 

flores na janela defronte do mar e a Netita no gozo do corpo disforme a colocar os pezitos nas ramagens aguadas serenadas que as ondas após o  rendilhado deleitam  na areia... onde o pé se diz firme porque sente o mar grande e ele nu vejo-me no dilema  sobre o que  preferir se o romance envolvente do Alfredo ou o  caso amoroso da Zélia e Francisco...

Sei é que  tenho de apressar-me e  conduzir a merda de um carro para a  merda de um emprego que  obriga estagnar o cérebro para  nele ocorrer um desfile de miséria humana na finita condição que médicos espreitam nas lentes dos microscópios por vezes em lágrimas a espreitar o que nos compõe no que nos faz

diferentes e condenados e nessa condição pensar um pouco no que tenho para amar  ser  afável  e procurar por vocês

nestes corredores onde paredes não têm musgo nem se vislumbram andorinhas afectos implícitos como os que deixo na cozinha com a persiana  já  aberta para o mar e vos oiço a discutir a melhor felicidade … vou-me embora com gestos já feitos e sem flores e paro apenas pouco sobre as pernas para entender o que todos dizem… um romance tem sempre que se lhe diga  ainda com amor dentro... Vou.. Trabalhar sempre diz que é honrar...   

“…amigo, pergunto-te pelas flores  o cão já dorme contigo... não te culpo amar o próximo como homem como tu, culpo - me  não enxergar no que nisso  existe de extraordinário ou irregular ou metafísico ou diferente ao egoísmo disforme a possuir um sexo ou transcendente em saber em quem gastar até às entranhas o afecto, o carinho, a comunhão descomprometida... “

 

Paço de Arcos, Julho 2008

 

Conchas, búzios e areias

Um sonho   esquisito! Teimou-me em ânsia antes do urinol… como animal disforme pela manhã sem obrigações que  alçar  a persiana da cozinha na  roldana esfarelada  para  a claridade  inaugural da canícula bafejante e saber-me  desvirginar e desvirgular o mar aqui perto do pé do nariz do pé do coração do pé da alma do pé do farol do Bugio ao pé dos amigos recordados ao pé do bolo  trincado do pé ao abraço que adiamos … Portugal, anos da era 2000 ... no sufoco de oito que perdura mágoa e falta de estímulo suficiente a formar

pátria nação e coadjuvantes que não rimem com

razão, que não, para todos, assim juntos, a querer o mesmo sabendo o respeito devido a quem  ser diferente e mais guloso, farto, com cereja em cima dele em atropelos nos entre tantos como espasmo doentio e alcançável para ser maior.  O que se segue é desse furtivo sonho num arremesso pesado e suado mas razoável, suficiente, para me colocar  na convivência de  lobos raposas e lontras matreiras…

- olá Francisco olá  Zélia... nessas mãos a tatuagem ferida que os pais desaprovavam  - não curto… estás a ver a cena macabra, desenhas o diabo na pele, desfolhas o malmequer na tradição popular bem me quer mal me quer e depois o esbelto macho vai às urtigas e tu no  turbilhão de lágrimas  até  clamas pelos pais...  

- não é bem assim, estamos a curtir cenas... hão-de  compor-se, haja esperança caramba,.…isto há-de  dar para todos...

sei bem  esse uivo animal desconfortado   nisto surge o Alfredo que abarcando de  soslaio o romance que trabalha à anos e sem rasgar - sabes, a  Netita apesar de verdadeira, incomoda

 

 


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CRÓNICA

 

mesmo no pássaro dilacerado delas quando nasce não deixa de ser pássaro apesar de  excluído na espécie mas isso em potência para isso  gerado a exercer livre o acto instintivo ou algo não definível

- deveria ser esta a tese  pensei

o Jaime advertira-me no convívio do intervalo entre aulas

- estás tramado pá vais para lá a dizer disso sabes que apanhas com coisas formais ...

o correligionário Jaime, bailador  trintão, figura-se o galante da turma  e que vai a mulheres por dois euros e nelas se introduz e nelas e por elas desdiz–se depois os sentidos são trocados e na  perplexidade trancada arroga, sereno, após amaciar a franja oleosa teimosa na inclinação direita sobre a  tez 

- aprender formalismos... eu?

esta é a tese depois vem a antítese armadilha deformada para o que soçobra e finalmente esbelta

procriadora a seleccionar  tudo na forma da palavra menos o sentimento

- ah, o que os professores exigem que se diga é que existem várias formas de dizer o mesmo mas importante é dizer de forma uníssona a desigualdade  formal que objectiva  a verdade irrefutável  ou seja,  dizer  da praxis ...

isolo-me em trepidação romanesca e  saber-me  confuso nisto tudo que a Escola dita em fluxo torrencial a maior parte das vezes nós adultos e os de mais na turma confere - lhe a pausa para reflectir melhor sobre que propósito adoptar  não ter  impaciência  mas o turbilhão compactado da lucidez suficiente para responder em  economia de palavras e raciocínio e subtracção de sentimento  em  ritmo ardente muito superior  ao churrasco.

É difícil crescer  em Portugal, querer ser mais habilitado e ágil ou ousar voluntarismo. Existem planos oficiais para alcançar metas didácticas para  parâmetros europeus em estatísticas aferrolhadas na engenharia

 

 

contabilística  em  contraponto a  metas individuais que as artimanhas dos  empregadores viciam  em  orgasmos pacóvios e tardam ou simplesmente  ignoram  a reconhecer  em repor a legalidade e  a  ética de formalismos democraticamente aceites entre Estados mas negligenciados  nas  bases… não digo mais propositadamente... o mais importante neste desconforto foi que passei por eles estrangeiro ( como Fernando Pessoa  escreveu no Livro do  Desassossego ) e gozo maior que a paisagem  na vida  proporciona  foi   atravessar  o  pátio exterior da Escola com  uma  lágrima contida ( desta vez consegui ser homenzinho, querido pai )  o gesto aprumado  a segurar a pasta com os mundos das matérias oficiais dentro, e não ser capaz de censurar vícios ou banalizar sonhos nem  contrapor as maravilhosas qualidades a  que cada um está habilitado a silenciar enquanto reza ou deseja  amor… por  tudo, olho, recortado na alma,  pelo o que aqui vivi, nos  anos 70,  tudo outra vez, agora,  as árvores sempre deram  abrigo no Inverno e no Verão  se não existir  malvadez e a crosta que as faz é dura e  as  estátuas firmes…saio da Escola e respiro.

“… ah, o que os professores exigem que se diga é que existem várias formas de dizer o mesmo mas importante é dizer em uníssono a desigualdade

formal que objectiva a verdade irrefutável ou seja, dizer da praxis... “

(que minhas filhas leiam isto ao Avô paterno  e  digam em timbre macio que tudo é verdade… sim, em algo não  somos nós nele, mas ocorre podermos ser por inteiro, num dia igual a tantos com estátuas e árvores num silêncio e respiração esforçados )

 

Paço de Arcos, Junho 2008

 

 

Conchas, búzios e areias

Após trinta  e  tantos  anos pus-me  a caminho da Escola, aprender  o novo porquê do quê porque é verdade que  o céu nunca é igual e os entes queridos  representam  determinada estrela nesse céu quando ele é  limpo e permissivo  a  leituras e  crenças ou nós mudamos ou  presumivelmente achamo-nos de menos em tanto ou simplesmente teimamos no que significa o desejo pessoal porque também as coisas realmente mudaram sem o nosso consentimento. Fui para essa tarimba no cumprimento do repto feito pelas minhas filhas  (felicidade íntima que não sei desvendar em palavras, eu, só, no choro mesquinho silencioso infantil) qual escuteiro iniciático e a Escola ainda ensina a educação  do sofrimento exigente quando expomos embrenhados ideias e convicções buriladas, algo frontal menos formal em cânones seculares ou à beira disso na disciplina determinada ou nas palavras que  adensam o cérebro. Escorregamos fácil no que ele diz e a garganta não segura o sentido hermético confuso e o professor desdiz peremptório o que neste momento argumento

 - eu não passo de  pássaro de asa ferida

 o professor imperativo

- não, você tem que ser explícito e convincente em ideias irrefutáveis e para voar, como diz, ser enigmático porque a matéria oficial do ensino requer procedimentos entre quem ensina e quem aprende o que está assente ser aprendido… e voar não é para todos … existem asas  diversas sendo todas asas...

eu a querer ser eu sem convicção prepotente  expor entusiasmado  algo possível a convencimento a quem sabe mais ou possui  vantagem ou forma de saber o que é sofrer diferentemente e soar as estopinhas ainda por demais asas… tão frágeis nobres

 

 

 


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CRÓNICA

 

banho fedorenta onde persistia um pombo de plástico pregado na parede  de cabeça inclinada para a latrina e duas velas ressequidas em pires esfacelados. Por cima o dizer: vem por bem mas olha o que fazes, algo intrigante que sempre me fez reflectir entre lábios sobre a finalidade do poder sobre os que não o detêm quando as palavras soçobram . As minhas palavras perante minha avó não as pronunciava - merda e só merda quem por bem venha se não saiba quem seja- no pensamento enquanto pontapeava as pedritas do arruamento na terra avermelhada de regresso com minha avó Adelaide.

Assim mesmo, outro silêncio que de mim falava com ela sob o sol esquivo nas ramagem do embondeiro perto da casa. Hoje sei que o pároco da Terra Nova foi sempre convincente e não denunciou o assalto às hóstias e vinho doce ( talvez não tivessem data de validade para acalentar pecados e desvios terrenos) também sei que tudo na vida depende do altruísmo e sua negação e que fazer coisas deve compreender o que o contrário da imoralidade acarreta  para ser farol na vida. Os políticos já não são fazedores nem artesãos, apenas prevaricadores sem penitência admitida e  não fazem a Política, essa altruísta como a mágoa por não alcançar o bem para o maior número de pessoas, essa, exigente no voluntarismo empertigado que nos faz grande, por nos sabermos ignorantes nos princípio do justo e justiça.

 

Viver começa a não ter sentido, porque existe sempre alguém disponível para usurpar o nosso  sentido, tradicionalmente tido como santidade e desígnio a perseguir como modo de preservar a espécie e proporcionar a outros a faculdade honesta, visceral com características próprias. Devia levar como sério o que a palavra significa não o que produz noutros… existem mentes em que  significantes, ou...estar bem ou amar uma borboleta, nada diz senão inquietude a remexer na ignorância e toldar a alma. Mas esse é o pior erro e de menos significado porque encontra tudo a voar, menos o que somos, sozinhos, sendo nós e sempre numa planície.

Um dia destes desprezo estes políticos e volto à Terra Nova de mão dada com a avó Adelaide e de sapatos pretos bem polidos baralhar de novo as pedritas da terra batida e falar com palavras mais despidas o que os meus lábios já não seguram.

 devia levar como sério o que a palavra significa  não o que produz noutros... existem mentes em que significantes, ou... estar bem ou amar uma borboleta, nada diz  senão inquietude  a remexer na ignorância e toldar a alma. Mas esse é o pior  erro e de menos significado porque encontra tudo a voar, menos o que somos, sozinhos, sendo nós

e sempre numa planície

(no dia que dou de mim nesta crónica é o Dia Internacional Da Criança dia que sempre reivindico sê-lo antes de o existir… sempre aos pássaros numa aragem que não pensa…sempre em fulgor traquina, asneiras e doces ) magia que muitos não alcançam

Paço de Arcos, 1 de Junho 2008

Conchas, búzios e areias

A cena interessante aparvalhada,  ciclicamente conivente e sofrível, mas, em parte, paradigmática ( infelizmente enjoativamente reincidente ) os média no alarido disforme, característico em países do subdesenvolvimento, nas dinâmicas e truques manipuladores, publicitam a intervenção televisiva e radiofónica do político. A imprensa escrita lenta na digestão compulsiva da mediatização apresenta-se descarnada nas letras impressas e distorcida da velocidade mediática. O político, sabe-se, em antecipação, não vir acrescentar à cultura popular pragmática ( toma lá espinafre dá-me o raminho de salsa) e nada diz de convincente e ignora não ser cidadão honorário, mas sabe-se palrador intencionado para auroras onde o galo canta como primeiro vizinho da luz que o céu liberta  - o honorário cúmplice, o cidadão comum esse, sim, cumpridor escrupuloso no que o Estado de Direito exige sobre forma de Lei e admitida inequivocamente e livremente aceite por conduta geral em obediência para benefício do maior número assiste, enrolado e esquivo, assume, expectante, na tibieza do político, a consequência das decisões, a virtualidade devidamente reflectida, isenta de complacência. Perto do Cacuaco, na Terra Nova, ia com minha avó à missa dominical exercitar as funções de sacristão ( espécie de treino para assumir a comunhão da crisma após o ciclo da catequese toda) com um amigo  indígena cujo nome  não lembro mas cúmplice na degustação das hóstias e vinho benzidos na sacristia que expunha um crucifico em  madeira junto à carta de condução do pároco a camisola interior barrenta dobrada em quatro com várias cartas de remetente feminino das várias províncias de Angola paredes meias com a casa de 

 

 

 


5

CRÓNICA

 

 já, apenas fêmea no lúgubre do silêncio e asas a ofuscar a claridade da luz que o céu presenteia...

- a mulher gaivota...

não Tozé , a gaivota como a mulher só tem relutância castradora à ausência de luz e toda a exactidão dependente entre o indesejado e consentimento obtido como flores e formigueiro de nervos ou brancura que não reside no obsceno de cada vez que não conseguimos a espontaneidade uma gaivota clama o íntimo do mar..elas sabem o deslumbre da

felicidade ao pé do mar nos  rochedos e algas não renunciam a liberdade e vão de encontro ao sol e não são Fénix  mas algo sem mentira, sim, debicam e fazem ruídos piegas

- uma mulher é carne...

também o seja não menos verdade que o é e sabe que o grito sob o luar

(torço-te o pescoço)

ainda assim a gaivota é mulher no luar trás nos pulsos gaivotas, repara, a silhueta os olhos o nariz  na boca prenúncios algo inflamado o amor nela piegas  dá na vida o que somos cada vez que vamos ao mar à nudez às palavras que cremos ser cada vez que vamos na vida num apego secreto

- uma mulher numa nudez e sobre o que fica, sei , esse desejo e malícia

 

 

não, não sabes a ternura numa gaivota sobre o ombro de uma mulher nua e a nudez da mulher que enleva o grito e dele diz o gesto e revolta e infortúnio e precariedade e ânsia do luar noutra maneira que é testemunha de beijos e saudade e vontade.

A mulher, Tozé, é gaivota porque ouça voar, é o ser mais nu no universo e quantas pontes erguidas para que nos aceitem homens a humanidade destrói e elas pedra a pedra há muito abraçam-nas e existem olhos que o não vêem …

 - se sabem voar porque não nos levam nesse voo esbelto no seu próprio silêncio...  

(...e penso nisso. Quando conseguir ouvir o ruído das asas da gaivota saberei, então, feliz, que tenho uma na algibeira sempre que um embrulho de papel pardo abra ou remeta com franqueza… com fraqueza dentro.)

devia trazer na algibeira uma gaivota afável e libertar-lhe o voo para tudo de cada vez  que algo me entristeça e alguém usurpe o meu silêncio… até uma sombra sair... e depois poder moldar o embrulho de carinho no papel pardo onde segue com remetente a fraqueza humana…  

Paço de Arcos, 19 de Maio de 2008

viva a Primavera 2008

 

Conchas, búzios e areias

Gaivotas no pulso

de coisas do luar

Aceito até... conheço-me deslumbrado com   gaivotas sobre pontes comovido a pensar numa cena  longínqua... - não vais brincar com sentimento verdadeiro!

- é presságio apenas amigo, alucinações que atravessas volta e meia encontras na nostalgia amparo de recordações… é a vida, vai, anima-te…(o Tozé pragmático não admite choro desconsolado somenos  piegas) ainda assim vindo de quem o deslumbre pela verdade, sonho, contemplo o que sou não sendo menos no que digo, logo de caras…

sim, é verdade, sinto comoção raramente vejo, nestes olhos, gaivotas abraçadas nas pedras seculares… as que fazem pontes verdadeiras e pensa, não despedaçam pétalas da vizinha empoleirada na varanda de rosas e malmequeres… as gaivotas são respeitadoras e não debicam o néctar de flores sem propósito extenuante, ou  força em sucesso como o voo do dia e assim determinam quase sempre a nossa convicção. Devia trazer na algibeira uma gaivota afável e libertar-lhe o voo para tudo de cada vez que algo me entristeça e alguém usurpe o meu silêncio… até uma sombra sair... e depois poder  moldar o embrulho de carinho no papel pardo onde segue com remetente a fraqueza humana e ainda há quem ludibrie e escravize esse sentimento precário. A gaivota é isso tudo embrulho ruidoso cada vez que vamos ao mar, silhueta elegante cada vez que pensamos em mulher no fulgor de formas e a nudez transparece falsa ou à beira da forma da carne parece o que não sei  

 

 


4

CRÓNICA

 

elaboradas em cima do joelho. A sociedade civil esgrime desconfiança nessa premissa e considera desfasada a realidade quotidiana a que se vê sujeita apontando maleitas ao país pouco desenvolvido embrenhado em ciúmes pela prima europa onde aberração moral é mais ténue e refém de justiça vigilante, implacável, bruta até ao torpor no uso de cidadania efectivamente assumida. Continuamos na loucura rematada de viés a esquecer o melhor para o país e pensamos dele um trampolim para a sisma e nefasto complexo tratado – filosófico sobre ludibriação malandra, o baixo e rasteiro porreiro que me faz, a mim, e aos que quero, felizes e superiores… Para este filme a História já pagou almoços e petit dejeneur em abundância e suficientes e expôs a nu culturas diversas em vidas melhores. Neste tempo abusivamente estrangeiro o ranger de dentes não turva a melhor imperial nacional mas ajuda a lábia isenta de moral com escárnio aparolado à fartazana na fortificação de albergues para compadres e favores díspares e cúmulos que a jurisprudência não consegue

fundamentar ou desconhece ou nos habitua olhar de soslaio. As bolachas da avó com sabor a

maresia em tempero nacional na época de bolos fartos em nuvens cremosas óleo de fígado de bacalhau para acalentar respeito pelas

 

vísceras  que somos feitos em silêncio revoltoso… por vezes  a vontade é

 

amar barreiras, dar  voz a muros nos silêncios dizem coisas que não entendemos e dizem muito de coisas precárias de pássaros inúteis que voam como palavras secas na abundância da alma … neste tempo abusivo não sei o certo do errado, sei o que amei amo e desígnios inteligentes faz-me constrangido e quero a papa da avó, os bolos cremosos a sério porque os snobes dignos de qualquer lugar não são líneos como o trajecto da pedrada que lançava a pássaros e escrevo, avós, mesmo desamparado, palavras que aprendi simplesmente porque me idolatraram … um país é para todos, ou… as tuas bolachas avozinha… a

 

maresia está cá… que fermento? 

 

 

 

neste tempo abusivamente estrangeiro o ranger de dentes não turva a melhor imperial nacional mas ajuda a lábia isenta de moral com escárnio aparolado à fartazana na fortificação de albergues para

compadres e favores díspares e cúmulos que a jurisprudência  não consegue fundamentar ou desconhece ou nos  habitua olhar de soslaio” 

 

 

 

(Nesta lavra lembro Rui Eduardo da Silva Moreira falecido precocemente e na vida amou o jornalismo na agência Lusa e em Luanda ambos amamos coisas deste planeta… fizemo-nos pessoas… a fisga, o sol, a desanda da família… mais não digo... pranto desmesurado… e “tu cowboy” e “eu índio” ambos Rui, como antes de novos muros…e os pais tinham um sorriso diferente e a luz fazia de almofada na alma) 

 

Paço de Arcos, 4 de Maio de 2008

Conchas, búzios e areias

Bolos, bolachas, snobes e líneos nesta carta desamparada…

Agora é sério: o tempo físico já deturpa a moral apreendida dos avós.

Queridos avós: falam políticos da praça no país que não reconheço. A relação laboral não corresponde. A sindicância encolhe ombros. O jejum moral atrofia laivos revoltosos. A juventude embala na exibição imperialista económica do melhor marketing… - quero as papas de pão da avó, mãe! - filho, vais entrar cedo na escola estás atrasado a torradeira deu-lhe o fanico…no televisor a imagem da jornalista madrugadora fala de tudo…  tempo instável mercadoria lavada em dinheiros subalternos a implicar julgamento a entorse do futebolista que conduz o carro de gama alta e provoca discórdia nacional… filho, querido, a falta da camisola de ginástica a mãe e pai assinaram a justificação na caderneta… não esqueças dá-la a ler à directora de turma…o televisor exibe peças jornalísticas pagas ao segundo a moicanos embelezados e gagos na dicção…Nesta fase lusa impropera no consolo e felicidade em coisas fortuitas os portugueses clamam ninfas, brumas e névoas antigas que assoalham no diálogo ocasional indignação e resignação saloia (respeito devido ao pão que o diabo amassou). É a fase cíclica do sentimento individual português impregnar a folia política com ardor e folclore no andor ornamentado do poder. Tudo misturado resvala em frieza insolente e pindérica Nesta fase lusitana do pregão da pescada, do amolador de facas e tesouras, da ginjinha em copo de vidro desossado, da castanha invernal aparelhada em páginas amarelas do cauteleiro de suspensórios e fluidos modelados nos sovacos tender ao extinguível, políticos e intelectuais equivocam-se acerca do país de maioria portuguesa. O poder político insiste na coerência a que está obrigada a destrinça do bem e do mal nas medidas que importa  ou as

 

 

 

 


3

CRÓNICA

 

rapariga e um rapaz fazem o programa há muito …ouves? música bonita, olha…da nossa região

-o nosso filho está crescido, como dorme, nem sei, esta confusão …

o quarteto da sueca poisa na mesa reis, valetes, as damas, acomodadas no tacto de  mãos grossas e unhas ruídas ao tutano, iniciam bailado aéreo no compasso do fumo entre palitos em rolos de presunto azeitonas espuma de cerveja neste ar do menino que já dorme com os anjos a voz feminina da rádio sai das  colunas enevoada

***

fiel e confidente amigo

ESPAÇO PORTUGUÊS

Sábados das 15:30 às 17:00 horas

ESPAÇO PORTUGUÊS

fiel e confidente amigo

português há 16 anos

rádioLora rádioLora

ZURICH

97,5 mhz

parabéns

em emoção no diálogo com figuras importantes da comunidade (a música de fundo do rapaz a condizer serena) as damas nas mãos calejadas contorcem cinturas

 

delicadas  as palavras no grupo da sueca adquirem sentido e as damas adelgaçam-se agora para evitar  o Jerónimo trôpego na bebida

- amor como é bom estarmos acompanhados sempre sabemos mais…

e a rádio enleva a sala  o sexagenário Fonseca sócio fundador do Centro mordisca a orelha da mulher e de soslaio  espreita o boletim informativo

- meu amor como estou feliz, na tua face rosáceas do tempo de menina saltando casas da “macaca” às voltas da pequenita pedra teimosamente caída na alegria da casa certa…

- amo-te

(o menino acorda lento e sorridente)

…seja também esta, ou espaço acolhedor de uma assoalhada alegre com fulgor para mais…

 no ar as damas  nas faces alegria  no Centro o respeito e na rádio um espaço português faz orgulhoso o velho Fonseca . Lá fora ouve-se…

 

na tua face rosáceas do tempo de menina saltando  casas da “macaca” às voltas da pequenita pedra  teimosamente caída na alegria da casa certa… seja  também esta ou espaço acolhedor de uma assoalhada alegre com fulgor para mais

 

 

16 Jahre

Laut

 

 

Paço de Arcos, 18 de Abril de 2008

Conchas, búzios e areias

*

Lora, olé…Lora olé…

ena pá... em português!

Expectação na família, míngua no paladar em linguarejar português…um quarteto másculo ao redor de cartas subtraídas ao baralho da alma a convocar gritos desalinhados quando afinal a boa suecada exige apaixonadamente, silêncio no contraste da rigidez das feições… a criança…olha, cuidado, resvala no berço… este barulho de música não a deixa dormir lento alongado … meu amor, olha, afinal não estamos sós. Na vitrina principal do Centro Português, com esquina na Mágoastrasse, o cartaz descolorado do artista promete canções de amor e voz inigualável… (este cartaz, meu amor, já aí está vai para dois meses e quanto à festa, sei, não cumpriste a palavra, eu sei, mas compreendo… o dinheiro é curto mas, amor, neste sábado e eu amo-te e a vida apesar de difícil sempre proporciona dignidade e trabalhamos que nem galegos…) no Centro Português outro dia falaram numa rádio em português, olha, em directo, ouvi a reportagem a falarem de amor ao próximo sabedores de andorinhas que adornam os peitos das pessoas, amor… não somos assim ignorantes que não percebamos as palavras… lindas, sabes, com sentimento dentro vocalizavam a descrição de lugares, de pessoas as suas personalidades diferentes que reagiam ao momento ficam cúmplices e comovidas  depois apercebes-te do encaminhar, qual ninho feito com dedicação que o barro vai, com o tempo, toldando nas formas…estás a ver a andorinha tua amiga na terra em várias primaveras reconhecia-te sob o alpendre da casa de teus pais… cheguei ver-te dar migalhas à mão… Espaço Português o nome do programa para nós emigrantes em Zurique na Suiça o presidente da associação diz ouvir-se longe, para lá dos montes com neve onde trabalha o Carlos e fala de coisas…como dorme o nosso filho

- olha espera, este folheto diz que a emissão  vai começar… é hábito nesta associação… ouvem esta rádio e comentam notícias e o desagrado desaparece entre nós…

- e dorme bem a criança amor, sossega, dá atenção, são duas vozes, uma

 

 


2

CRÓNICA

 

cera, contorcida, pressionada, disforme sem silhueta esbelta, percorre caminhos em desequilíbrio…aflige-me a ausência de memória na afirmação de esquecermos o bem que a primavera nos quer, os seus nomes, na infatigável regeneração nos obriga a um olhar menos rapino a um gesto lânguido de encontro a algo, à amizade contida para não resvalar na banalidade de encontros e desencontros, contemplo estar vivo ao pé do mar e ter nome entre tantos que não lembro… Mas estou em condições (mesmo que dispa a nudez do poema que me atormenta) de lembrar nomes que fazem o espaço físico e humano que vivi até hoje: professora primária, loira, de magreza coberta no vestido anos 60 de nome Isabel (eu era o menino eleito para lhe afagar rosto e demais corpóreo na frescura do leque com gaivotas decoradas); o Vitalino negro igual a mim branco nas beatices da missa nos arremessos tardios da sineta para a hóstia da comunhão (ambos eleitos acólitas dominicais com sapatos polidos mas hóstias devoradas em segredo na sacristia e ambos orgulho das avós);a personagem disforme na gordura de banho com suor de porco no guiché do aeroporto de Lisboa onde cidadãos das africas descolonizadas faziam prova do retorno ou abrigo livre e consciente  de destino pátrio para refazer vidas provocou em mim o primeiro drama de juízo de valor (suprimiu-me  na identidade do

nome  o dos… ignorante, nunca soube que dos significa tanta coisa importante da vida na vida e pela vida); seriam tantos os nomes quantos sei que sinto nesta primavera permitir-lhes o voo melaço que sempre significarão para mim, assim procurarei sereno

 

sombras que já tiveram nomes, mesmo debaixo do sol agressivo do sul, mesmo a ver flores a rivalizar o repouso do espaço e no meio da gritaria marroquina vermelhões em ombros ingleses, belgas, franceses, italianos e demais representantes da globalização, vejo-me a lembrar-vos com carinho com olhos estilhaçados mas vejo-vos mesmo assim percorrer caminhos sossegados em redor da baía perguntarmo-nos o nome do pássaro, da flor, a renascença que a primavera nomeia mas que ofende-se quando não lembramos o nome que afincadamente desfralda (apetece-me receber o vento que ajude o pólen da minha flor vogar no bico fino do pássaro que não lembro o nome).

Imaginemos uma vida suficiente assim que nos faculte a facilidade de lembrarmos a velhice com nomes, espaços, e demais deleites que só aos humanos está inerente ajuizar. Será interessante sabermos qual a flor qual o pássaro qual a primavera… por mim farei o possível que dê direito à felicidade posterior à ausência do que se vive e sente.

“do pássaro ou da flor não sei lembrar o nome mas sei a primavera arrojo de alma com corolas entrelaçadas nos gestos numa página numa água num figo como relâmpago de visão e predilecta a mencionar nomes perfeitos adequados que voam com melaço no que significam” 

Paço de Arcos, 30 de Março de 2008

 

Conchas, búzios e areias

os nomes… lembro?

Uma flor em leque no vento debaixo do céu azul o pássaro pousou e não me lembra o nome…mas um pulso marroquino adornado de metais reflecte energia ao pregão de plácida magreza emigrante vendedora de peles e demais na marginal de Cabanas de Tavira, neste instante, o pássaro vai num voo simétrico o vento aligeira-se e sinto atormentar menos as pétalas, frágeis… (este nome sei). O sol fustiga ingleses na direcção das tascas e do embarcadouro enquanto a Ria Formosa excede margens (a primavera teima em pequenas ternuras de borboletas que se avizinham e a cegueira dos homens inaugura menor perícia). Escrevo para “começar não se sabe o quê…talvez seja só forma nua de umas palavras…) como escreveu António Ramos Rosa em As Palavras…é nesta nudez fluente que tudo irradia sem sombras que o sul atrai em tatuagens nos lábios e muros de musgo e horizonte vogando entre as gentes. Do pássaro ou da flor não sei lembrar o nome mas sei a primavera arrojo de alma com corolas entrelaçadas nos gestos numa página numa água num figo como relâmpago de visão e predilecta a mencionar nomes perfeitos adequados que voam com melaço no que significam. O que procuro afinal é impessoal e subjectivo no registo do drama quotidiano… na marginal com o mar por perto tudo pode ser fuga para a felicidade, é tentá-la como percurso confuso de coisas e objectos capazes de a proporcionar, insuspeita como onda sem desolação, e no intervalo racional que o frémito e astúcia reivindicam em permanência, pessoas diferentes, menos fúteis senão menos impessoais na cegueira mais disfarçada ou simulada de menos. Contemplo a ardência de estar vivo… e sereno desmesuradamente a pensar no poema nu em meu interior (os seres vivos são-nos irmãos enquanto tiverem na vida a caligrafia redonda como a lua cheia, um brilho suficiente que advém do escuro) com palavras pobres que não procuram verdades na rima mas expressam nomes, lugares, circunstâncias, asperezas de vida de cuja vela se vê chama em desequilíbrio quotidiano ordinário que se faz global e a

 

 


1

 

CRÓNICA

 

abordagem não consiste no temor do que seja tido por passado individual mas, isoladamente, serve uma perspectiva de solidariedade humana nas suas ilhas idílicas, que nos consomem por dentro como sombra sempre deslizante, em silêncio de ideias, a cumprir, deveres e compromissos, tal como deve ser o uso da riqueza e poder no todo implícito, mas substantivamente despegado, como rasto que se modifica com valor que deverá sempre, implicitamente, acrescentar no seu significado um porvir melhor.  O que pobremente é começo neste devir e porvir do sentir como conhecedor de indignação, “aspereza” daquilo que acontece, ou como formatação endógena, é o desleixe disforme de palavras que teimam em acrescentar ao sentimento práticas realizadas, ou realizáveis, sobre o que dissemos e continuamos a dizer. Um grupo que partilha juízos de valor falsos também tem uma conclusão verdadeira de paixões ás candeias... Ou seja, em parte incerta onde julgamos ter uma vida verdadeira, assiste uma prática que a confirma. Um grupo de adolescentes em cima duma mangueira em Luanda atirando caroços sugados até ao tutano de encontro ao boné cinzento dum polícia não significa ausência de respeito… significará, antes tudo, um conjunto de pessoas, (e é já um conjunto…) que de melhor o que tem como tal, livres, independentes e em consciência, ajuízam ser proveitoso o seu melhor: dar e permitir a terceiros o pleno usufruto de particular identidade (sempre susceptível de erro e contraditório)    estar sujeito a um juízo e em causa própria exercer defesa livre e consciente. Que defesa teria o polícia do nosso contentamento com mãos esfregadas nas folhas da mangueira? Que liberdade lhe seria reconhecida em defesa     numa causa onde infractores tinham o verdejante resplandecente da mangueira selvagem nas aragens e nas terras? Mais, que vociferar de encontro àquilo que não se reconhece ou por princípio não se estima e  considera como sendo provavelmente um acto alheio rude que faz da   existência  um cenário exigente de escolhas e sentido. O sentido está inerente a quem faz e não naquele que não

 

faz. Assim sendo fiz asneiras no arremesso do caroço de manga ao polícia logo, razoavelmente fui punido não pelo o que pratiquei mas pela intenção indevida. O mesmo se aplica no movimento associativo na emigração… errai pelo que fazeis mas não  determinem o erro pela a ausência do valor   nele colocado sendo sempre determinante num juízo onde o sentido de grupo se faça pelo exagero do todo e se verifique o desprezo  objectivo do  individual.  Deste modo não  seria necessário que uns poucos falassem  por todos.  No movimento associativo português  na Suiça  urge esta consciência:  a fruição do respeito colectivo  reside na insatisfação de nos  compararmos individualmente sem  possuirmos o domínio da fraqueza colectiva. A comunidade  está como a manga manca  reluzente por fora mas  corroída por dentro. Em Portugal dá-se o nome de manga de avião…  

Eu aprecio a manga trincada de forma a sugar o caroço e servir de arremesso (sempre é uma arma ecológica).      

 

Um grupo que partilha juízos de valor falsos também tem uma conclusão verdadeira de paixões às candeias

 

Paço de Arcos 23 Março 2008

 

Conchas, búzios e areias

 

Não era implícito a repreenda de meu Pai! Fim de tarde, significava para mim, e para o grupo das trotinetas, patetice feliz e alegre e segura em pacto de sangue imaginário entre correligionários da mangueira… Fila ordenada alçava-se pernas e contorção de cinturas até à copa majestosa com mangas róseas. Trincadela sobre trincadela no fruto, a observar a saída dos empregos, o grupo excitava-se quando, no meio de anónimos, surgia a silhueta da autoridade policial percorrendo pachorrentamente uma área geográfica mental que nunca “concordamos” e sistematicamente iludíamos (a nossa alegria era o arremesso do caroço, devidamente sugado, de pêlos tesos, ao boné cinzento do figurão). Todos sonhávamos com algo diferente da realidade? O Vitalino, mais lesto e evoluído no arremesso do caroço com fisga (borracha esticada e cientificamente cortada de pneus de tractores que alisavam a estrada da Terra Nova na empreitada da Junta Provincial de Povoamento) o negro como eu que sou branco e sempre nos confundimos, rivalizava com o meu braço e antebraço direito para jogar fora, contra alguém, aquilo que nos cabia em demasia na alma, um medo da existência no confronto com o dilema de uma elegia de estoicismo. Eu sabia, finda a aventura de rasgar calças de menino de colégio, babar-me com o suco doce de esbelta manga, ironizar destinos vários sobre várias pessoas anónimas maldizer a formação que eventualmente servirá desígnios futuros, de cheirar nos fluidos do corpo àquilo que afinal sou ou penso ser ou, afinal fui… (e neste momento… como todos, depois de se ser quando alguém ousa dizê-lo, sinto-me envolto, na precária urgência de crescer infantilmente, a ter o direito à desrazão…) que me aguardava, talvez, na nudez indígena de meu Pai,  uma suave carícia ou repreenda máscula por ter sido igual aos demais. Hoje sei o que meu Pai sabia de forma  mais complexa com metáfora contraditória   na personalidade: ser   igual significa  perder de mão um pássaro   (bico-de-lacre)   ferido e sentirmos prazer e dor… Esta