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A
livraria da Carla

Alice Vieira , Escritora
A Carla e o Filipe são emigrantes na Suíça, mais exactamente na
cidade de Zurique. Andam ambos pela casa dos 30, têm dois filhos
pequenos. Poderiam, como a grande maioria dos emigrantes,
contentar-se em fazer pela vidinha, trabalhar que nem uns moiros
para conseguirem os francos necessários à construção da casa na
aldeia nortenha donde vieram em crianças, até ao dia em que
regressassem, com sotaque e língua já meio estranha.
Poderiam. Mas não o fizeram.
E, no centro da cidade de Zurique, decidiram, contra ventos e marés,
abrir uma livraria exclusivamente dedicada a livros de língua
portuguesa.
Uma livraria a sério - e não um daqueles lugares onde se vende de
tudo, e também uns livritos para dar um ar cultural à coisa...
Que eu saiba, na Suíça existia, até agora, apenas uma livraria
portuguesa a Livraria Camões, na cidade de Genebra. Desde o passado
dia 24, existe também a "Lusolivro" de Zurique. É um espaço muito
agradável, com as paredes pintadas em tons vivos, estantes onde
apetece mexer, uma montra que dá para a rua e chama a atenção de
quem passa (e lá dentro, bem escondido, para a surpresa ser maior,
uma máquina que tira bicas como em qualquer café de Lisboa - e toda
a gente sabe como o cheiro do café e o cheiro dos livros produzem um
aroma único e imbatível à face da terra...)
A inauguração foi uma festa, e a livraria transbordou de gente. Nem
o facto de ser sábado, nem aquele enorme nevão que de repente caíra
sobre a cidade conseguiram desmotivar as pessoas. As vozes dos
adultos e as vozes das crianças (e todos a falar um português
impecável) misturavam-se com a música ambiente e com a voz da Maria
dos Santos que, de microfone em punho, fazia entrevistas para uma
rádio que transmitia a inauguração em directo.
Não sei quanto a livraria facturou nessa tarde de estreia sei que a
pobre da Nicole não arredou pé da caixa registadora. Quanto ao
recheio, há de tudo, desde a Margarida Rebelo Pinto e o Paulo Coelho
a Lobo Antunes, Saramago e mesmo nomes mais recentes, passando pelos
clássicos que, por vezes, tão difíceis são de encontrar nas
livrarias portugueses. Manter uma livraria portuguesa num país
estrangeiro (mesmo, como é o caso da Suíça, com uma forte componente
de emigrantes) não é tarefa fácil. Mas a Carla e o Filipe têm
energia para dar e vender.
É bom chegar a Lisboa a acreditar em gente assim. Compensa de muita
coisa. (E até me fez esquecer aquela suíça controladora da bagagem
de mão no aeroporto de Zurique que, lançando olhos ferozes para
dentro da minha minúscula mala, decidiu confiscar-me a escova de
dentes, sem qualquer justificação...).
Alice Vieira escreve no JN, quinzenalmente, aos domingos
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