Alexandre Pastor

 

 

Alexandre Pastor

JL – JORNAL DE LETRAS                                                                                                

(Suécia, Outubro de 2009

  

 

Um Nobel merecidíssimo

 

2009 não poderá acabar melhor. O Nobel para a Paz para Barack Obama (mau grado as críticas ridículas dirigidas ao comité norueguês), o de Literatura para uma Mulher com maiúscula que, com humildade rara e logo após ter sido laureada, nos confessa: “Eu não tenho a força suficiente para escrever uma história fictiva, eu só posso escrever sobre aquilo que eu própria vivi.”Biografia mais sincera e sucinta, é difícil encontrar.

A escolha de Herta Müller feita pela Academia Sueca foi aqui recebida (e pelo menos em toda a  Europa, ouso acrescentar), apoteoticamente. Não só pelo escol da crítica literária do país, como ainda pelo público que já teve a sensatez e o prazer de a ler. Não é para surpreender. O mundo está pejado de vítimas de ditadores e ditaduras, e se algumas delas caem pela sua própria podridão, logo outras surgem com a espantosa celeridade de cogumelos deletérios. Então é só porque Herta Müller escreve sobre a sua experiência de vítima da ditadura de Ceausesco que o Nobel lhe é autorgado? Longe disso. Como muita gente saberá, a lista de muitos outros que já o fizeram, é longa. O combate à tirania é imemorial, tão antigo a ponto de se não lhe conhecer a origem. À memória vem-me logo ‘La Vingt-Cinquième Heure’, de Constantin Virgil Gheorghiu, também ele romeno e autor desse punjante livro que denuncia barbaridades nazis e soviéticas. (Por casualidade, conheci V. Gheorghiu e Castro Soromenho quase simultameamente, em Paris, e de ambos ouvi relatos inesquecíveis do abjecto comportamento-cão do homem para com o seu próximo.) Depois, ainda bem vivos, há Christa Wolff e Imre Kertész, ambos testemunhas recentes, literárias, de sociedades ditatoriais do antigo Leste europeu. Mrozek e Kundera também fazem parte da lista, embora esses tenham preferido satirizar os sádicos que se aprazem em brincar com vidas alheias, torturando-as ou matando-as. Tão-pouco devemos esquecer Vaclav Havel, misto de nobreza de carácter, moderação e bondade personificada. Com ‘Night at noon’, o húngaro e inteligentíssimo Arthur Koestler antecipou-se a todos os nomes atrás mencionados.

Não, Herta Müller mereceu o Nobel por múltiplas razões: é que como quase bilingue (o romeno aprendeu-o assaz tardiamente, à volta dos 14-15 anos, segundo ela própria) ela – como o incrível Guimarães Rosa – necessita, por vezes, de inventar-criar novas palavras, quer para descrições poéticas, sublimes, às vezes humorísticas, quer para os sucessivos quadros dolorosos que se apraz em dar-nos, quiçá para que não esqueçamos o deleite que é de viver em democracias. Nesse aspecto, H. Müller é magnífica, e não raro um problema  para quem a traduza. Depois, é uma representante indiscutível do que tanto ser humano espalhado pelo mundo conhece bem: a herança da repressão e os estragos que ela deixa para sempre no mais íntimo de cada um de nós. Ora essa ameaça, a perda de liberdade, nunca é demais anunciá-la. Contudo, a autora  persiste em afirmar-nos:”Nunca fiz da  literatura um mito, nunca quis ver isso como uma ocupação superior.[…] No fundo, não quis ser nenhuma escritora, tive sempre outros planos para mim própria. Escrever foi um trabalho em que eu tropecei.“ 

Dos 22 livros que escreveu, H. Müller (n.1953) tem apenas oito traduzidos para sueco. Ficou proibida de publicar na Roménia após o seu segundo romance „Drückender Tango“. Dos meus favoritos, fazem parte ”Viajar num só pé” (1991) e a obra ensaística publicada em 2005. O seu último romance „Atemschaukel“, ainda não aparecido em sueco, baseia-se num encontro da laureada com o poeta e seu patrício Oskar Pastior, o qual, ainda jovem, foi levado para um campo soviético de trabalhos forçados.  

Hertha Müller é a décima segunda mulher que recebe o Nobel de Literatura. A primeira foi Selma Lagerlöf, em 1909.  

 

 

 

Alexandre Pastor

JL – JORNAL DE LETRAS                                                                                                

(Suécia, Abril de 2008

  

Um futuro promissor

 

Já uma vez a mencionei nesta coluna, mas sou forçado a repeti-la. Trata-se da frase de que o falecido catedrático Prof. Bertil Maler (B.M.) fez uso, ao anunciar-me o seu firme propósito de criar uma cadeira da nossa Língua e Cultura em Estocolmo, e propor-me a sua regência. Hispanista e lusitanista de renome, B.M. doutorara-se com uma dissecção da obra Orto do Esposo, em 4 volumes. A sua frase foi esta:“Uma semente desta natureza só poderá dar boas colheitas.” Judeu liberal, oriundo da flagelada Galícia, dava contudo clara preferência a analogias bíblicas, tendo passado a fazê-lo sempre que se referia às nossas gentes. O Brasil teve-o ele sempre bem presente (a sua tese fora publicada no Rio, em 1956, pelo Instituto Nacional do Livro), bem como o potencial cultural que já se entrevia nas ex-colónias. Para iniciar os cursos, B.M. estimara que seria indispensável ter uma biblioteca à disposição dos futuros alunos com, no mínimo, 800 obras. Sonho a roçar o megalómano, mas que, paulatinamente, se viria a concretizar, agora graças a um português e com uma justeza digna do maior elogio. Refiro-me ao Dr. José Blanco, ao tempo Administrador da Fundação Calouste Gulbenkian. Sem o apoio incondicional que lhe mereceu a iniciativa de B.M., os alicerces em que o projecto assentou logo à partida não teriam sido tão sólidos. Também não devem ser esquecidas as ajudas (através de bolsas de estudo) prestadas pelo extinto Instituto de Alta Cultura. 

Hoje podemos deitar foguetes, pois as tais ‘colheitas’ têm correspondido, messianicamente, ao vaticínio maleriano. A festa é uma realidade. O Nobel a Saramago já quase passado à História, e a incansável Dra. Simonetta da Luz Afonso, consciente de que só haverá sentido onde exista continuidade, abre na capital sueca uma filial do Instituto Camões. A actual Leitora de Português, Catarina Stichini (que fique por muitos  anos!), além das suas ”Tertúlias ao fim do dia” (palestras informais de temática diversa), dá provas de um dinamismo inusitado. A disponibilidade e genuíno interesse com que o actual Embaixador de Portugal, José Carlos da Cruz Almeida, acompanha os eventos realizados naquele Centro, pô-lo-á, sem exagero, (a par do desempenho de Álvaro Guerra) na breve lista dos vistos (pela colónia lusa) como os melhores diplomatas que por aqui passaram.

O ano não pôde ter começado melhor. À projecção de seis filmes nossos, na Cinemateca da capital, seguiu-se uma homenagem pictórica ao Rio de Janeiro da década de –50. Em três salas do Museu de Arte Moderna de Estocolmo, as esculturas de Lygia Clark, os guaches de Hélio Oiticica, seis obras de Ivan Serpa e esboços  (infelizmente poucos) de Oscar Niemeyer, deleitaram a crítica. Depois foi a saída do “Fado em sueco” a que M. Halpern já se referiu neste jornal. Pouco depois, em versão sueca, o último livro de Mónica Ali, escritora de Bangladeche que faz uma análise do Alentejo em “O Verão em Mamarrosa”. Um duplo encanto é, para o público sueco, o último disco de Sérgio Mendes, intitulado “Encanto”. No seu giro deste ano, Cesária Verde preferiu Uppsala. Continua a fumar a meio do espectáculo, o que já desagrada ao público de salas sempre repletas.

Das ’tertúlias às 18 horas’, acima referidas, saliento a palestra do escritor brasileiro Rodolfo Ilavi. Organizador de uma ’Gramática do Português falado’ (em 8 tomos, produto de inúmeras entrevistas a gente culta de S. Paulo), revelou-nos surpresas deste teor: nessa fala, já não se ouvem dois tempos verbais: o futuro simples, e o pretérito-mais-que-perfeito. Segundo Ilavi, fenómenos irreversíveis.  

É no entanto no avultado número de obras já traduzidas do Português (independentemente da sua variante) ou em vias de tradução, que o meu regozijo se concentra. Na Europa, a Suécia é o país que se pode orgulhar do maior número de títulos vertidos para sueco. A flexibilidade de muitos desses tradutores é digna de apreço e louvor. Exemplos: Örjan Sjögren, depois do simplismo da escrita de Paulo Coelho, deu-nos o quinto título de uma exigente Lispector. Traduziu ainda ”Cidade de Deus”, agora ocupa-se de Lobo Antunes. Marianne Sandels,  filóloga com declarado amor por clássicos (que já traduziu), depois de obras de Agualusa, venceu a complexidade de ’A Paixão’, de Almeida Faria. De momento ultima uma antologia poética de V. G. Moura. Hans Berggren, com fôlego de maratonista (do inglês verteu a bela biografia de Soyinka, de 617 págs.), já traduziu a sofística criminal da brasileira Patrícia Melo, e concluiu agora a sua oitava traduçäo de Saramago, ’As Intermitências da Morte’. Alice Vieira pode estar descansada: Helena Vermcrantz saberá dar conta do seu recado. Inger Alves está decidida a ocupar-se de Gonçalo M. Tavares. A lista é longa, e nunca é de mais sublinhar: não se negue nunca apoio a esta plêiade de idóneos tradutores! Eles são os melhores garantes deste tipo de continuidade literária tão imprescindível a qualquer cultura.

Na semana transacta, estiveram presentes na sala do Centro Camões, Ana Luísa Amaral e Gonçalo M. Tavares. Ambos falaram dos seus modos de trabalho, das suas ‘visões’e modos de escrever. A primeira no que respeita à sua poesia, o segundo de como gosta de tratar os seus temas, em geral, e, particularmente, do seu romance premiado, Jerusalém. Lufada de ar fresco que é na nossa Literatura com maiúscula, este Pessoa em embrião não terá a mínima dificuldade em encontrar, no Norte, nem editores nem tradutores ávidos da sua prosa.

Por último: a editora Norstedts, a maior do sector lexicográfico na Suécia, anuncia para o início do próximo ano a publicação de um novo dicionário Português-Sueco. As suas características torná-lo-ão único na Europa, pois será o primeiro a conter milhares de vocábulos e idiomatismos do fecundo léxico luso-afro-brasileiro. Numa palavra: as 7 vozes do Português estão de parabéns.

Segundo consta, a obra não segue o famigerado Acordo Ortográfico, quiçá por acharem não fazer sentido empobrecer o que é tão rico, tão fecundo – a tal diversidade castiça, garantia do surgimento de novos e novas Pessoas, Clarices, Torgas, Vinicius, Mias Coutos, Saramagos, Pepetelas, Agustinas, Agualusas, Guimarães Rosas, Lobos Antunes, etc. etc.

O semestre fecha com chave de ouro. No dia 1 de Maio os monarcas suecos visitam Portugal.

 

 

 

Alexandre Pastor

JL – JORNAL DE LETRAS                                                                                                

(Suécia, Março de 2008

Lobato & Obama

  

Na casa paterna a biblioteca era vasta. Centenares de livros no nosso Português, outros tantos em espanhol (maioritariamente del siglo de oro), havia ainda muitos sucessos em vários idiomas europeus, depois seguiam-se nada menos que duas estantes apenas com o escol de uma literatura irmã - a brasileira. Meu pai chamava-lhe a ”nata” da nossa biblioteca, eu, o verdadeiro ”ouro” do Brasil. Assim, já antes de concluir o liceu, eu ficara ciente da incrível, deslumbrante e rara capacidade daqueles autores de imbuirem a maioria dos seus personagens não só de grande sacralidade como de profanidade, de nos darem figuras sempre tão inteiriças tanto na virtude como no pecado (não raro hilariantes), de, sem a mínima dificuldade, quase a brincar com o próprio idioma, lograrem brandas, belas, quase meigas soluções sintáxicas e variantes verbais. Sendo os tempos que corriam, de peste, em ambos os lados do Atlântico, vi logo nesses escritores o modo informal-magistral de fazerem uso de uma total liberdade de expressão, a par de, literalmente, dissecarem a imensidão da terra que habitavam. Umas vezes faziam-me rir, outras, chorar. 

A figura do pobre “Jeca Tatu” foi das que me deixou, como adolescente, com os olhos marejados de lágrimas. O melhor retrato desse caipira ou caboclo, como queiramos, mártir eterno do inóspito sertão brasileiro, vulto chaplinesco, sub-nutrido e analfabeto, resignado, quase cordeiro pascal em vésperas de imolação, pintou-no-lo o paulista Monteiro Lobato (1882-1948). Após tão tormentosa vivência não perdi um só testemunho deste incansável paladino de uma democracia que fizesse do Brasil ditatorial uma terra de leite e mel. Muitos outros autores, antes e depois dele, deram-nos também retratos pungentes desse sertão-purgatório, só que o vernaculismo regional de Lobato é, por si só, uma autêntica mina vocabular. Críticos néscios apontam a sua fraqueza para o patético, o não ter tocado no interior dos personagens, esquecendo que ele via na miséria física e mental do caboclo a verdadeira desgraça desse sertanejo. Como Brecht, Lobato pensava: “Primeiro comer, depois a cultura”. O grande sonho lobatiano foi este: Se se explorasse o ferro e o petróleo, o país teria recursos de sobejo para a saúde pública e a educação do povo. Daí o ditador Vargas o ter metido na prisão. Mas Lobato era da estirpe do nosso Henrique Galvão. Daí ter escrito dois livros ainda hoje válidos: Ferro (1931) e O Escândalo do Petróleo (1936). (A sua obra  sobre os EUA, América (1932) tem o brilhantismo do livro que Natália Correia nos deu sobre esse país.). Adepto incondicional das possibilidades da Ciência com maiúscula, já enveredara pela

ficção científica e escrevera o impagável O macaco que se fez homem (1923), depois foi o pioneiro de uma nova literatura infanto-juvenil, formado que era num clima de pós-modernismo. A sua pedagogia teve um sucesso tal, retumbante, que levou o autor a lamentar ter perdido anos preciosos a escrever só para adultos.

Por que me decido a recordar este notável brasileiro? Trago-o em mente logo que soube que um americano de cor, Barack Obama, se candidatava às presidenciais do seu país. É que Monteiro Lobato, genial que foi, predisse justamente esta viabilidade. Em O Presidente Negro (ou O choque das raças ), publicado já em 1929, ele admite que num futuro não distante, dois factores levarão a isso: a baixa natalidade branca pelo uso de contraceptivos e a alta, da populaçäo de cor, resultado da falta de recursos e conhecimentos.

Em “Dreams from my father “ (1995) e “The audacity of the Hope” (2006), Obama assemelha-se em muito a Lobato. Ambos educados por avós, são ambos bacharéis em Direito, tiveram ambos um grandioso sonho humanista digno de ser apoiado. Para Obama, em bom caminho, nutro grande esperança até na sensatez da população latino-america. Para Monteiro Lobato, já que Getúlio Vargas o renegou, que o Presidente “Lula” o leia, pondere, e o mantenha à cabeceira como uma Bíblia.            

 

Alexandre Pastor

JL – JORNAL DE LETRAS                                                                                                

(Suécia, Novembro de 2007)

 

A força do destino

 

 

Nice, Portugal e o Brasil. Que pode haver de comum neste triângulo toponímico? Há muito, pois os laços que o unem são inúmeros.Históricos e culturais. Remontemo-nos aos primórdios do séc. XVI. Nessa altura, o duque de Sabóia, Carlos III, o qual governava os Estados Sardos (Piemonte, Sardenha e Sabóia), receoso da política expansionista francesa e numa tentativa de se aproximar da família dos Habsburgos, numa igreja dos Dominicanos de Nice (hoje Palácio da Justiça) contrai matrimónio com a jovem D.Beatriz, infanta de Portugal e filha de D. Manuel I, o Venturoso. Corria o ano de 1521. Para abrilhantar as festas do evento, Gil Vicente escreveu o Auto das Cortes de Júpiter [1]. Nascida em 1504, e ainda muito garota, a nossa princesa ouviu falar, na sua corte, da paradisíaca beleza das Terras de Santa Cruz, depois, já como Béatrice du Portugal, como passaram a designá-la (embora fosse duquesa de Sabóia), os niceenses ouviram-na amiúde descrever uma terra agora chamada Brasil. Falecida prematuramente a 8 de Janeiro de 1538, apenas com trinta e quatro anos, esta nossa antepassada está sepultada na catedral de Sainte-Marie, no château de Nice. Foi esposa modelar, sobretudo na adversidade política do marido, quando este perdeu muitos dos seus ducados a favor de Francisco I. Em sua memória, Carlos III mandou cunhar belos medalhões com o seu retrato, hoje peças de valor artístico e histórico. E foi esta nossa duquesa quem semeou não só na corte como na populaçäo niceense a curiosidade pelas maravilhas da terra onde Cabral havia aportado. Não surpreende portanto que muitos cidadãos de Nice tenham vindo a participar na vida científica e política do Brasil. (O próprio Carnaval brasileiro tem a sua origem no desfile anual de carros floridos de Nice.) Numa época mais chegada, o niceense Hercule Florence desembarca no Rio em 1804, participa numa exploração científica, casa com uma brasileira, pesquisa sobre técnicas de imprensa polígrafa, estuda fenómenos e efeitos da luz, debruça-se sobre as propriedades do nitrato de prata, e a 15 de Janeiro de 1833 Florence assenta notas no seu Journal que o colocam hoje como precursor da invenção da arte fotográfica. Jean-Baptiste Vérany, também niceense, químico e investigador naturalista, após ter criado o Museu de História Natural de Nice, enriquece-o sobremaneira com exemplares de fauna e de flora após longa viagem de estudo ao Brasil.

Outros filhos desta bela cidade dariam que falar entre nós. André Massena, general niceense a quem Napoleão chamava ”o filho querido da Victória” , o que não evitou que fracassasse redondamente no Buçaco e em Torres Vedras aquando da terceira invasão francesa, em 1810. Como porém dos fracos não reza a História, à praça mais bonita de Nice não hesitaram em dar o nome deste general, La Place Massena. As malhas do destino apertam-se ainda mais com o nascimento de um outro niceense, o famoso e temerário Giuseppe Garibaldi (1807-1882). Um intemperante Che Guevara daquela época, republicano de gema, ambicionava conseguir a união da Itália e que Nice se guindasse a capital da Europa. No Brasil, D.Pedro sucedera ao pai, D.João VI, que regressara a Lisboa. Após o seu “grito do Ipiranga” e  do não menos famoso “Fico”, o jovem monarca passa a intitular-se Imperador a partir de 9 de Janeiro de 1822. Pouco depois abdica para ir defender os interesses da filha. Sucede-lhe o filho D.Pedro II, personalidade inteligente e erudita que contraíra matrimónio com Teresa Cristina, filha de Francésco II, rei das Duas Sicílias (abrangia Nápoles e a Sicília), justamente o reino contra o qual Garibaldi lutara para lograr a unificação da Itália. O revolucionário está em Marselha, fugido da polícia francesa, quando a peste deflagra na cidade. Do Brasil, conflitos limítrofes no sul (Uruguai e Paraguai) chegam-lhe aos ouvidos. Sem hesitar, aliciado como é sempre por combates a monarquias, Garibaldi participa ferozmente, é o termo, nesses motins e rebeliões. O facto de D.Pedro II (que em 1877 declara livres os nasciturnos) ser casado com a filha de um rival italiano, não é de desprezar. As biografias deste agitador profissional  vacilam num ponto: Garibaldi deixou Marselha para fugir à peste ou foi mesmo para lutar pela causa liberal? Tão-pouco as suas memórias de 1850 nos esclarecem, é evidente. (Além desse livro, Garibaldi escreveu ainda poesia em francês e italiano). Mas o seu destino quis mais e no auge das refregas apaixona-se pela portuguesa-brasileira Anita Duarte, de dezoito anos e casada. Nisto há total unanimidade dos  biógrafos: foi um amor desmedido aquele, e cuja sublimidade é atestada por ambos. Ele afirma nunca ter visto mulher mais intrépida, ela promete morrer ao seu lado na luta por um mundo mais justo e melhor. Os três varões que tiveram saíram do mesmo jez, pois lideraram inúmeros motins militares pela Europa.

Anita está sepultada em Roma, mas no cemitério de Nice ergueram-lhe uma lápide tão bela como ela própria era.

Quanto a D.Pedro II, patrono das ciências e das letras no Brasil, após um reinado de 58 anos, recusa o apanágio dos liberais, regressa à Europa, perde a consorte no Porto, visita em muitas ocasiões uma cidade onde cientistas e letrados o veneram -  Nice. Em 1882 morre num modesto hotel de Paris. Garibaldi morre também em 1822, em Cabrera, minúscula ilha entre a Córsica e a Sardenha. Em comum estes dois homens só tiveram uma coisa: ambos morreram sós.

[1] Há uma lenda de uma paixão de Bernardim Ribeiro (1482-1552) por esta infanta cuja beleza era notória, lenda essa de que Garrett por sua vez se aproveitou para escrever o drama Um Auto de Gil Vicente (1838).

 

 

Alexandre Pastor

JL – JORNAL DE LETRAS                                                                                                

(Suécia, Outubro de 2007)

 

Sequelas nobelianas

É certo que o presidente Sarkozy, há pouco, asseverou a Bush que a França estará sempre ao lado dos EUA. Contudo, uma coisa são promessas (políticas), outra é a realidade de certos factos. Acredite-se ou não, a verdade é que se mantém, há muito, um conflito entre a Europa e aquela superpotência, se assim ainda se pode designar a martirizada sociedade americana. Refiro-me à guerra surda que se trava no campo da investigaçäo, da pesquisa científica, aludo à hegemonia americana para o progresso da Humanidade versus a europeia. Paradoxalmente, o discreto conflito iniciou-se, a bem dizer, a partir do dia em que foram instituídos os múltiplos Prémios Nobel. Mormente os de carácter científico têm sido o calcanhar de Aquiles europeu. E a ninguém que tenha entrado numa universidade americana onde trabalhou ou trabalhe um cientista laureado com um Nobel, pode ter passado despercebido o ostensivo orgulho que têm nisso. Não se ficam nunca pelas inúmeras fotos, lembram sempre ao visitante o prestígio do lugar onde se encontra. Por outro lado, eles são os primeiros a reconhecer que nos EUA houve e haverá sempre “uma certa histeria Nobeliana.”

Infelizmente, esta animosidade-inveja da parte de muito europeu só tem incrementado. Este ano, porém, e segundo vozes de idóneos cientistas do nosso continente (a Suécia incluída), a Europa deu finalmente “um capote” aos ianques (usou-se até o termo grand slam – usado só em bridge, whist e ténis). Isto porque dos seis laureados com os prémios de química, física e medicina, quatro residem e trabalham na Europa, e os outros dois, os médicos Mario Cappecchi e Oliver Smithies, são igualmente de origem europeia, além de que Smithies deve a sua formação académica a Oxford.

Esta vitória científica é agora um consolo para uma UE que, através de melhores programas e maiores recursos, se esforça a todo o transe por, se não suplantar, pelo menos alcançar no futuro um nível de resultados compatíveis com os dos EUA. O júbilo manifestado por Anders Bárány, director do Museu Nobel, é sintomático. Eufórico, disse que os milhões e milhões de euros destinados à investigação científica (justamente a França decidiu apostar em grande) começam finalmente a dar resultado. E acrescenta: “E os resultados serão ainda melhores quando a UE tiver um órgão próprio exclusivamente responsável pela investigaçäo científica europeia.” Muitos  esquecem (ou talvez não queiram pensar sequer nisso) no que está para chegar vindo da China, da Índia, do Japão, países onde a investigação científica é cada vez mais privilegiada. Se até Napoleão já sabia que “quando a China acordar, o mundo vai tremer.”

O Nobel de Economia (este ano para um trio americano) é quase um exclusivo dos EUA (95%). O da Paz é tão global ao ponto de nos anos trinta ter sido proposto até um Chanceler de nome Adolfo Hitler. No que respeita a Literatura, a nenhum escritor dos EUA se lhe ocorreria dizer “não, obrigado”, como já o fizeram dois europeus. Falando de Literatura: À Academia Sueca, após a escolha inesperada de Doris Lessing, apodam-na agora aqui de “Academia das Surpresas”. Mau grado trinta anos de espera, lá o recebeu. Os alfarrabistas da capital asseguram que ninguém procura obras suas. Acho-a merecedora pela sua ductilidade temática, bem comparável à da nossa incomparável Agustina.

Por último: aqui desenrola-se agora um conflito entre escritores e colegas femininas. Motivo:

elas ousaram enveredar também pelo género policial e, num ápice, conquistaram popularidade e fortuna, tal como eles. As brejeirices que, nos media, se dizem uns aos outros, são da pior casta. Mais: o substantivo sueco para o vocábulo “escritora” - författarinna – está em vias de extinção. Cada vez mais ouço-o substituído pelo substantivo no masculino – författare, ainda que se trate de uma autora! O próprio secretário da Academia disse: “…o Prémio Nobel de Literatura de 2007 vai para o escritor inglês (meu sublinhado) Doris Lessing, que …”

 

 

Alexandre Pastor

JL – JORNAL DE LETRAS                                                                                                

(Suécia, Julho de 2007)

Obra-mestra sobre Saramago

No fundo, não é nada surpreendente. O autor-investigador é sério, inteligente, erudito, competentíssimo, além de – o que já começa a rarear – objectivo, imparcial. O investigado-estudado, como sabemos, uma autêntica mina de valores múltiplos. O resultado não poderia ser outro senão o título que dou a esta resenha.

Sintomático é também que este rigoroso estudo, extensivo, cabal, sobre a produção literária de José Saramago (JS) não nos chegue vindo do punho de um português ou brasileiro (poderia ter vindo, por exemplo, de Teresa Cristina Cerdeira da Silva ou de Orlando Grossegesse, dois estudiosos que mais se debruçaram sobre a obra de JS) mas sim de um inglês. Isto talvez porque seja o mundo literário anglo-americano (desde há muito, mesmo levando em conta a sua superioridade populacional e em relação ao mundo culto, germânico), que tem dado à Humanidade um caudal impressionante de obras de ficcão, acrescidas de muitíssimas outras dos mais variados campos de investigação cultural e científica. Posto isto, algumas considerações sobre o magnífico livro que David G. Frier escreveu sobre a obra do nosso laureado nobeliano, “The Novels of José Saramago” – echoes from the past, pathways into the future (University of Wales Press, 2007).

Para já, não se avalie este estudo pelo assaz modesto número de páginas que ele contém (231), tendo em conta a vasta produção de JS, isto porque uma das qualidades patentes de Frier, como escritor, é justamente dizer-nos tanto - com detalhe e conotações precisas – com uma louvável parcimónia de palavras (característica esta também muito anglo-saxónia por oposição à pura germânica). Frier preferiu dividir o seu livro em apenas dois capítulos: Privilege and Exclusion e Centripetal and Centrifugal Forces. Precedidos de uma arguta introdução (pois ela ela é simultaneamente um retrato de JS), o remate do estudo intitula-se Conclusion: Death, The Ultimate Injustice; Love, the Ultimate Triumph.

A imanência de Notes neste livro (muitas delas exemplificativas, exaustivas) não deve nem amedrontar nem cansar o leitor, já que elas são, só por si, um segundo livro. Se tivermos em conta os universos sempre díspares de JS, o seu constante envolvimento existencial, a sua metalinguagem, o seu experimentalismo, a análise psicológica irmanada à crítica social, a sua incomplacência e desmedida radicalidade, o bifrontalismo das situações que nos dá (pois não perde pitada em achegas ao Estado, à Igreja, ao Sebastianismo, à Pide, etc.,), esta necessidade premente de Notas, fica absolutamente justificada, dando-nos ao mesmo tempo a certeza de que o autor quis ler se não tudo o relacionado com o seu objecto de estudo, pelo menos o mais que lhe foi acessível. Suponho que tenha até lido A Clarabóia (1949), obra de JS até hoje nunca vinda a lume. E aconteceu, no curso da leitura, perguntar-me se Frier trabalhou tendo  JS sempre ali à mão, para lhe esclarecer tanto detalhe que se compraz em dar-nos. Sabemos que pôde consultá-lo, é evidente, mas muito do que nos revela é só fruto de uma pesquisa consciente, metódica, incansável. Que Levantado do Chão e Memorial do Convento ocupem um lugar de destaque nesta obra, não admira. Esses dois livros fazem parte do primeiro capítulo e compreendem-se melhor graças à lúcida introdução de Frier, onde se refere à nossa História, mentalidade, tradições, etc. Álvaro de Campos disse que “Só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas”. Esta obra de Frier afigura-se-me justamente isso: mais do que um estudo, é uma carta de amor dada a forma desvelada e profunda com que o objecto de estudo foi tratado. 

David G. Frier é professor de Português na Universidade de Leeds. Lecciona ainda Literatura Portuguesa nos Departamentos de Português em Los Angeles, Santa Bárbara e Edimburgo. Dele, conhecia apenas Visions of the Self in Novels of Camilo Castelo Branco.

Este livro sobre JS será por muito tempo uma obra de referência imprescindível para todo aquele que se interesse pelo nosso Nobel. Eu, que me julgava a par de muito, fiquei agora enriquecido de pelo menos quase outro tanto. Parabéns e obrigado, Mr. Frier.       

 

 

Alexandre Pastor

JL – JORNAL DE LETRAS                                                                                                

(Suécia, Junho de 2007)

 

Cultura da CPLP na Suécia

Neste primeiro semestre de 2007 muito aconteceu, digno de nota, no que se refere a eventos culturais, em Português, na Suécia. O rol de acontecimentos é gratificante, pois à já habitual lista de literatura vertida para sueco, desta vez aliam-se sucessos musicais e do sector teatral. (Estadia em Praga seguida de digressão açoriana, fizeram-me perder apenas a visita e colóquio do escritor Mário de Carvalho, realizado em Abril na Universidade da capital.)

Comecemos por Eduardo Agualusa. Recentemente premiado em Londres, no palco sueco o mínimo que dele podemos dizer é que é um autor privilegiado, pois além de ter caído em mãos de uma tradutora competentíssima, Marianne Sandels, de Uppsala (já traduziu Almeida Faria, Eugénio de Andrade e Craveirinha, bem como duas outras obras de Agualusa), os livros da Editora Almaviva fazem jus a este nome, assim como à suprema beleza da simplicidade estética que nos oferecem. Desta vez foi Um estranho em Goa, a obra traduzida. O nível e correcção do texto vertido não é inferior ao belo da capa. (Não raro, dou-me ao trabalho-prazer de cotejar originais portugueses e respectivas traduções suecas. O que então sinto remonta-me sempre aos auspiciosos primórdios do ensino da nossa língua aqui. Isso, e o refrigério de ter ambas dentro de mim.) Agualusa deu ainda uma palestra na Universidade. Falou-nos de Luanda, meu torrão natal, agora infestado de chineses. Foi fascinante ouvi-lo.E também triste. Fiz perguntas. Compreendo que não tenha ousado pôr em foco algumas das amargas verdades do quotidiano luandino, pois ali, como em Portugal, pode-se ser punido por delito de opinião.

O dramaturgo José Maria Vieira Mendes teve a estreia mundial da sua peça Blackout no pequeno teatro Oberon, aqui em Estocolmo. A versão sueca, fluente, coube a SebastianWede;

a direcção dos cinco protagonistas ao novato Karl Seldahl, o qual apresentou um excelente trabalho. Se por um lado a trama é bem portuguesa, realismo com boa dose de absurdo, por outro o tema pode ver-se como internacional. O elenco bebe continuamente, detalhe que só por si deleita o público sueco. Destaque sobretudo para o papel do pai da família, repesentado por Sven Wollter, actor idoso cuja interpretação foi simplesmente magnífica. (Duvido que algum outro actor o possa superar).O crítico do matutino SvD, Lars Ring, achou que a obra tem muito ( talvez demasiado) de Strindberg, Lorca, Pasolini e Koltès.

Paulo Coelho, “o alquimista da palavra”, como aqui é designado, não cessa de agradar aos nórdicos. Porquê, já uma vez o expliquei neste jornal. Além da publicação da tradução do seu primeiro livro (os restantes estão traduzidos por Örjan Sjögren), e ao que parece lamentavelmente feita a partir da versão inglesa, uma actriz sueca dramatizou a obra 11 minutos , encarnando ela todos os papéis, projecto ousado que, não tendo recebido boa crítica, indubitavelmente suscitará mais procura do romance original.

Uma rentrée primaveril aqui não seria comme il faut sem a presença de mais uma obra de  Fernando Pessoa. O casal Margareta Marin e Lars Axelsson, exímios tradutores de Lysekil, da Editora Pontes (como aliás todos os que até aqui se dedicam a verter para sueco originais da CPLP), têm o nosso “super Camões” como seu favorito. Antes, e com sucesso, traduziram de Eça “Os Maias” eO Primo Basílio”, de Machado de Assis “Helena” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Quanto a Pessoa a lista não é menos imponente: “Poemas” de Alberto Caeiro, “O Banqueiro Anarquista” e o problemático “Livro do Desassossego”, versão esta que já vai na terceira edição (revista e melhorada). Este ano a escolha recaiu em “A Hora do Diabo” e “ A Educaçäo do Estóico”, versões dignas de todo o louvor, pois agora é mais que evidente ser o longo exercício o único “fazedor” do mestre. O título de uma longa recensão feita pelo crítico Mats Gellerfelt do matutino SvD (acompanhada de foto da escultura do Chiado) foi este: ”Pessoa brincou com a fragilidade do eu”.    

Ainda do sector literário: A tradutora Inger Alves, da Editora Intermediabooks, adquiriu os direitos das obras de Alice Vieira para, pouco a pouco, irem sendo vertidas para sueco.

Örjan Sjögren, indubitavelmente o mais diligente de todos os tradutores, está agora inteiramente dedicado à literatura brasileira. Ao seu já longo currículo de obras traduzidas do Português (cometeu a proeza de verter para sueco o quase ”intraduzível” livro de Paulo Lins ”Cidade de Deus”), juntam-se agora mais estes autores e obras: Adriana Lisboa, carioca, com a obra ”Um beijo de Columbina” ; Clarice Lispector com ”Água Viva” ; Vasco Graça Moura com ”O enigma de Zulmira” e Elvira Vignac com ”O que os homens devem saber” . De momento, Örjan Sjögren está a braços com uma antologia de contos de C. Lispector. Para a Editora Tranan, Gunilla Wiberg traduziu o policial de Pepetela Jaime Bunda”, calhamaço sobre a realidade angolana (que levou um mês a cotejar), verdadeira tour de force mesmo para um tradutor experimentado.

No que respeita a música, houve-a para vários gostos (em português, cabo-verdiano e genuíno brasileiro). A crítica deu a pontuaçäo mais alta aos últimos cd e dvd de Cristina Branco. Há uns anos atrás, após uma actuação na Casa da Cultura aqui na capital, C.B. foi criticada (como aliás em Portugal) por trazer um pianista consigo. O crítico Bengt Eriksson diz que estes cd e dvd, além de ”elaborados muito pedagogicamente”, são uma resposta ”bem timbrada” da cantora a todo aquele que a critica. A 18 de Março C.B. actuou na Konserthuset, a maior sala de concertos de Estocolmo (onde é feita a entrega dos Prémios Nobel). Ingrid Strömdahl foi pródiga em elogios, compreende essa transição do fado tradicional para uma nova modulação. A TV sueca transmitiu ainda um espectáculo ”live” da cantante em Amsterdão.Cesária Évora, habituée  desta capital, abriu o Festival de Selam, a par da jovem Sara Tavares. Para a crítica, os 65 anos da primeira, além dos cigarros que fuma, acentuam a bela melancolia das suas mornas. Por último, três endiabrados jovens brasileiros: O trio ”Bonde Do Role” teve lotação esgotada aquando da sua primeira actuação em Estocolmo a 17 de Maio. Rodrigo Gorky, Marina Ribatski e Pedro Dèyrot, intérpretes do chamado ”bailefunk” (inspirado na vida da favela carioca) viveram a tradicional louca apoteose com que a juventude brinda este género musical e congéneres. TV e Imprensa diária não lhes pouparam nem elogios nem reclamo.

Lygia Bojunga, premiada há quatro anos com o Nobel da literatura infanto-juvenil (Prémio Astrid Lindgren de 5 milhões de coroas), teve anteontem, 10 de Junho, a sua narrativa ”Alexandre e o pavão” dramatizada e encenada no Dramaten, o Real Teatro de Estocolmo.

É mais uma história empolgante e complexa desta brilhante escritora cujas obras estão já quase todas vertidas para sueco. A tradução foi de Kajsa Persson, a dramatização de Anders Duus, a encenação a cargo de Agneta Ehrensvärd. A temática da obra presta-se a fortes cenas. Sonho e realidade segundo o melhor realismo fantástico sul-americano, acompanhado, é claro, de discreto samba e música de Lill Lindfors.

Do escritor Deniz Ramos, de Águeda, recebi e li “As cores do crepúsculo”. Belo título desta “prata da casa”, como o autor a designa. É um detalhado estudo do que se sentia, se pensava, se fazia, numa Lourenço Marques pouco antes de ela passar a ser Maputo. Mais uma achega objectiva (pessoalmente vivida) para a já rica história literária daquele país.

Que concluir desta breve resenha? Que não importa a variante em que um idioma se apresente numa obra literária, cantada ou pronunciada num palco. O que conta, sim, é e será sempre o seu valor intrínseco. Porquê então querer “homogeneizar” o Português? Uma língua é uma dádiva divina (Exodus 4:11). Ela, como as suas variantes. Combata-se o analfabetismo, e multiplicar-se-á o seu esplendor.           

 

 

JL – JORNAL DE LETRAS                                                               

Alexandre Pastor

(Suécia, Fevereiro –07)

 

A maldição da ”esquerda”

Nenhum outro livro está tão cheio de preconceitos sobre o conceito “esquerda” (a mão, o lado, a ala, a direcção, etc.) como a Bíblia. Para tranquilidade do leitor devo acrescentar desde já, que este anátema milenário não é apanágio exclusivo do mundo cristão. Ele estende-se por muitas outras doutrinas e cultos divinos, abrangendo até rituais religiosos dos índios das tribos Maia e Azeteca e ainda tradições do povo zulo, na África meridional. Porém na Bíblia, ele prolifera, excede-se. No Livro dos Juízes, por exemplo, (em hebraico, Sophetim) é-nos descrito (Cap. 3: 15, 20 e 21) como ”Aod, filho de Gera, filho de Jemini, que se servia de ambas as mãos como da direita”, foi encarregado, pelos filhos de Israel, de levar presentes a Eglon, rei de Moab. ”E estando o rei só, assentado no seu quarto de verão, Aod lhe disse: Tenho que dizer-te uma palavra da parte de Deus.” Então o rei levantou-se do seu trono, e Aod, ”estendendo a sua mão esquerda, tirou a adaga do lado direito, e cravou-lha no ventre.” Também na Gibea, onde vivia a tribo dos Benjamins (uma das doze de Israel), foram uma vez escolhidos 700 soldados ”canhotos” para enfrentarem o inimigo. Embora tenham saído vencedores, apesar disso não lhes foi depois poupada a vida. Toda a associação com a ideia da ”esquerda”, na Bíblia, é malévola, merece castigo. O filho caçula e predilecto do patriarca Jacob recebeu o nome de Benjamim, cujo significado hebraico é “filho da minha direita.” E assim por diante. Todas as vezes que figuras bíblicas fizeram uso da mão esquerda, elas parecem possuídas de forças ímpias, criminosas, enquanto que o lado direito, uma posição à direita ou só a mão direita, são sempre sinal de bom agoiro, ventura, objecto de dádivas divinas. Num dos cânticos de David, implorando a misericórdia de Deus, lemos: “…tu que salvas aqueles que se refugiam na tua mão direita.” E quando o Templo foi profanado, o clamor foi este:”Por que escondes a tua mão, a tua mão direita?”

Esta anatematização da “esquerda”está também presente no Novo Testamento. O Filho de Deus separará os homens ”tal como um pastor separa as ovelhas das cabras; e as ovelhas pô-las-à à sua direita, as cabras à sua esquerda.” E às primeiras dá-lhes as boas-vindas ao reino que está feito para elas, enquanto ao que se encontra à sua esquerda pede que se afastem dele, amaldiçoando-as para que pereçam nas mesmas chamas criadas para o Diabo e seus anjos.

Também segundo o Evangelho de S. Mateus não se deve “deixar a mão esquerda ver o que faz a direita.”

Canhoto que sou (por compreensão paterna), embora escreva igualmente com a direita (por tirania escolar), o tema mereceu sempre a minha melhor curiosidade.

Como se não bastasse essa estreiteza de vistas teológica, que a meu ver brada aos céus, muitos dos nossos queridos idiomas não quiseram ficar-lhe atrás, e zás! Em português devemos ter cuidado em não nos levantarmos da cama com “o pé esquerdo”, e se, incautos, isso fizermos, devemos logo gritar o esconjuro “cruzes, canhoto”, isto porque assim afastamos o diabo de nós, pois canhoto, além de designar quem escreve com a esquerda é, popularmente, o Satanás, e, claro, “eruditamente”, também canhestro, isto é, inábil, desajeitado, não destro. E porquê “fazer-se esquerdo” (desentendido) e não fazer-se direito?

Quanto ao rei dos idiomas, o inglês, nele o chorrilho de asneiras (aceites) não tem fim. Que um ou uma left-handed (canhoto, -a) tenha a mesma acepção que em português, aceita-se, mas  além de significar alguém sem jeito para nada, desastrado, é ainda coisa ambígua, até maliciosa! Um left-handed business só pode ser algo ilícito, mafioso, uma negociata, lucro caviloso. Um left-handed compliment não é senão um remoque, uma indirecta, uma picuínha, e livre-nos Deus de algum dia um médico nos dar um left-handed diagnosis . Um left-handed marriage é o que se designa por ´casamento morganático´ ( pessoa nobre com mulher de condição social inferior). No alemão, ser-se linkisch  é ser-se ´desastrado´, ´lorpa´. E no chinês, no francês, etc. o conceito mantém-se: a direita é sempre equidade, a esquerda erro, acto iníquo. Só uma expressão francesa se mostra positiva para com “a esquerda”: mettre de l´argent à gauche  significa ´poupar´, ´fazer economias´. No sueco, vänsterprassel (vänster = esquerda e prassel = sussurro, ruge-ruge) significa, imagine-se, ´aventura extra-conjugal´ (democraticamente, seja dele ou  dela). Mais: vänsterknäcka , também sueco, é ´fazer uns biscates´ e …exactamente: não dar um tostão ao fisco!

Em muitos países em que os dedos substituem, à mesa ou no chão, o talher, em África e em  grande parte do Oriente, é a mão direita que se utiliza, nunca a esquerda. Ali, essa serve só para ´nos limparmos´ cada vez que vamos aos lavabos. Levar a colher de sopa à boca com a mão esquerda (gaffe que, distraído, já cometi no Oriente) causa esgares e náuseas aos circundantes. Uma visita às margens do Ganges, é significativa. Entre os zulus, as crianças canhotas são castigadas metendo-lhes a mão esquerda num buraco com água quase em ebulição (as reguadas que apanhei na escola!). Muito antes dos disparates bíblicos que apontei, já os evoluídos egípcios, na sua mitologia, viam o olho esquerdo do Sol (de nome Set) como o causador de desgraças, enquanto o Horus, o olho direito, proporcionava só bem-aventurança. No budismo e no induísmo, este tipo de superstição pagã ainda prevalece. Muhammed Atta, um dos sequestradores que arrasaram o World Trade Center, em Nova Iorque, deixou no seu testamento directivas (caso o seu corpo fosse encontrado) para que o deitassem sobre o lado direito com o rosto voltado para Mecca. O famosíssimo fotógrafo sueco Lennart Nilsson (fotografou toda uma gestação pela primeira vez), conclui que os “canhotos” são o resultado negativo do uso do ultra-som. Além de que o índice de morte prematura, diz-se, é elevado entre eles. (O meu avô materno, canhoto também, faleceu feliz e  serenamente aos 98 anos).

A origem desta crença é tão enigmática quanto a etimologia do vocábulo ´canhoto´ é ainda hoje motivo de controvérsia entre filólogos-etimologistas. No entanto, as coisas parece que estão a mudar. Nos E.U.A., na Inglaterra, na Holanda, opiniões de psicólogos são cada vez mais aceites por empresas e patrões em geral. “Peçam ao pretendente ao emprego que escreva qualquer coisa. Se é canhoto (-a), não hesite! Dê-lhe um posto! São intuitivos, criativos, originais!”  

Bem, mais vale tarde do que nunca.

 

 

Alexandre Pastor

JORNAL DE LETRAS                                

(Suécia, Dezembro 2006)

O que ando a reler

 

No país onde tudo é possível (inclusive a insólita viabilidade de vir a ter uma mulher como presidente, o que indubitavelmente apaziguará o mundo), um bibliotecário da imensa cidade que é Chicago, teve, há uns anos, uma ideia simples mas genial. Consistiu no seguinte: Proceder à escolha de um livro, escolha essa conscienciosa, ponderada, publicá-lo a baixo preço numa grande tiragem, após o que a obra deveria ser lida por toda a população adulta da cidade.

 

 

Alexandre Pastor

JORNAL DE LETRAS                                

(Suécia, Novembro 2006)

Analogias da História

 

Não há um só país no mundo que não tenha datas significativas na sua História. Umas são tão belas quanto a lírica dos poetas neles nascidos, outras surgem-nos tão abjectas quanto a baixeza dos políticos que os lideraram ou lideram. Por vezes, há coincidências: Enquanto nós, portugueses, idolatramos, com plena razão, o 25 de Abril de 1974, para o povo Arménio é o mesmo dia e mês de 1915 uma data de profundo sofrimento, de luto, pois nele iniciou-se o horrendo genocídio de que foi vítima por decisão do governo que, à época, estava à testa dos destinos da Turquia. Com um paralelo à posterior Noite de Cristal (perpetrada pelos nazis, em Berlim, na noite de 9 para 10 de Novembro de 1938), na madrugada do fatídico 25 de Abril de 1915 foram presos em Istambul mais de seiscentas pessoas - comerciantes, padres, deputados, docentes, médicos, escritores, jornalistas, advogados, etc. cujo denominador comum era serem arménios cristãos. Por ordem do governo, esses cidadãos foram levados para a Anatólia Oriental (para alguns Ásia Menor) e ali fuzilados. O ministro do Interior turco, Talât Pascha, dá uma explicação sucinta desta acção ao embaixador alemão acreditado naquele país na altura, o barão von Wangenheim: “Aqueles intelectuais preparavam um golpe de Estado.”

O Nobel de Literatura deste ano, Orhan Pamuk, menciona por alto este genocídio no seu romance ”Neve”. Contudo, para conhecermos detalhes, não há como consultar a obra do alemão Johannes Lepsius “Deutschland und Armenien 1914-1918”, publicada um ano após o armistício da Primeira Guerra Mundial, isto é, em 1919. A explicação deste entendimento total entre a Alemanha e a Turquia está no facto desta última se ter mantido fiel aliada da nação germânica durante esse demorado conflito europeu. A vantagem de consultarmos a fidedigna obra de Lepsius é que este teólogo não escamoteia um só detalhe da exterminação metódica levada a cabo durante um ano pelo governo turco, a qual tirou a vida a cerca de 1,5 milhões de cidadãos arménios. À volta de 150 mil conseguiram fugir do país a tempo, outros, sobretudo mulheres jovens, foram vendidas a haréns. Os órfãos, aos milhares, esses foram educados segundo estritos dogmas islamitas, ocultando-se-lhes a sua origem étnica. É o próprio ministro Talât Pascha que volta a expressar-se nestes termos ao barão von Wangenheim: “A questão arménia deixou de existir.”

Graças a Lepsius, ficamos ainda a saber que o cônsul alemão em Aleppo, cidade fronteiriça à Síria, também participou ao embaixador von Wangenheim que a população ali estava a ser deportada, e que tanto ele como o seu colega americano suplicaram que se tomassem providências para pôr termo àquela tragédia. A 24 de Maio de 1915, tanto a Inglaterra como a França ameaçam punir o governo turco pelos crimes que pratica (o fotógrafo alemão Armin Wegner registou imagens de atrocidades nunca vistas, as quais foram ao ponto de tingir de vermelho o Eufrates, já que milhares de corpos, depois de esquartejados, foram lançados nesse rio). Henry Morgenthau, embaixador americano em Istambul, foi mais expedito propondo ao governo alemão que os arménios fossem trasladados de imediato para os EUA.

Não só o governo turco como também o alemão fizeram ouvidos moucos a qualquer referência ao genocídio que se praticava. Em Berlim, a 7 de Outubro desse fatídico ano de 1915, num comunicado à Imprensa alemã, os jornalistas são admoestados a não se intrometerem nos assuntos internos da Turquia, e assim não porem em risco a aliança existante entre os dois países. Mais: ”No que diz respeito à questão do povo arménio, advertimos a que se calem.” De facto, até aos nossos dias, este crime imenso tem sido negado, embora haja quem o tenha descrito mais recentemente. Por exemplo, o historiador turco Taner Akcam, que em 2004 publicou “Armenien und der Völkermord”, no qual lemos como os vinte e tal processos que os países envolvidos na Primeira Guerra Mundial abriram contra a Turquia (1919-1921) foram, juridicamente, um fracasso total. Até o próprio Ataturk ameaçou fuzilar os prisioneiros de guerra ingleses caso continuassem “aquelas acusaçöes sem fundamento.”

Que este crime seja ainda hoje tabu para os dois governos nele implicados (o alemão como conivente), é inexplicável. Uma tentativa dos EUA a levar a Turquia a reconhecer o genocídio fracassou quando o governo turco ameaçou com o fecho das bases militares ianques no país.

Nos livros de História, turcos, não há uma linha sobre o tema. Os livros de Orhan Pamuk são queimados. Quem, na Turquia, use o termo ”genocídio”, é punido com prisão.

Para quem conheça, ainda que por alto, o que foi o Holocausto, é fácil ver nele uma analogia com esse método sistemático e eficaz levado a cabo pelo governo turco. Tanto assim que Hitler, a 22 de Agosto de 1939, falando da ”questão judaica” e dirigindo-se aos comandantes dos esquardões das SS, disse: “… é imprescindível um extermínio sem tréguas do inimigo – homens, mulheres, crianças. Porque afinal quem fala hoje em dia do genocídio do povo arménio?”  

 

 

 

Alexandre Pastor

JORNAL DE LETRAS                                           

(Suécia, Setembro 2005)

Palavras leva-as o vento

 

Ao ler o que Tiago Torres da Silva (TTS) escreveu no nr. 912 deste Jornal, sobre o mal-estar que lhe causou um lapso verbal aparecido na revista Única, do Expresso, (”tivesse traduzida” em vez de ”estivesse…”), os meus pensamentos foram para um livro adquirido em Coimbra ainda nos tempos em que reinava o nosso António da Calçada. (Espero que, nesta designação, jovens leitores não vejam algum monarca da III Dinastia, de tão esquecido está o ensino da nossa rica-pobre História.) A obra em questão tem o título Enfermaria do Idioma, o seu autor João de Araújo Correia, o qual iniciara os seus comentários aos dislates cometidos na nossa língua já em 1955, tendo eles aparecido primeiro na existinta Revista do Norte. Ocorreu-me esse livro porque, ao contrário do sofrimento assaz atroz de TTS por aquele atentado verbal numa revista e jornal de qualidade, os reparos de A. Correia divertiram-me, fizeram-me até rir, a despeito dos tempos de peste que então vivíamos. Já os títulos dos seus capítulos são uma delícia:”Os atrevidos”, “Língua rota”(ô), “Linguagem delambida” (quem usará ainda este termo em Portugal?) etc. Ignoro se este autor ainda vive, e a si, TTS, se a não possui, desaconselho-o a procurar esta obra não vá ela causar-lhe um enfarte, ou enfarto, que soa ainda pior, recheada que está de atentados à nossa língua. E embora ela seja a nossa verdadeira pátria, acho que se deve ter complacência perante certos lapsos como o apontado por si, porque veja: Ensina-se aos alunos estrangeiros que se diz estar , passam horas no laboratório audio-visual a ouvir exemplos de pronúncias idênticas (estado, estilo, escola, etc.), depois vão ao nosso país por uma semana ou duas, voltam (bem bronzeados), e perguntam-me: “Tás em Estocolmo no dia …? “Traduzi isto assim. bem?”  “Hoje muito frio, não achas?”. “ manhã!” Porquê isto? Porque eles também telefonam para amigos daí (ou para livrarias, Instituto Camões, etc.) e logo ouvem: “Tou”, “Tou, sim“. E enquanto a aférese se pratica em Portugal tal como no Brasil, esse cara não tava lá, não ; não tou interessado nisso, etc. (a lei fonética do menor esforço é, como sabemos, inexorável seja qual for o idioma), por outro lado, na terra do Nobel cultiva-se a apócope com uma voracidade símil à dos impostos. Para ´matematik´ dizemos só ´mate´, para ´gymnastik´ só ´gym´, ping-pong diz-se ´pingis´ e assim por diante. Quer dizer, está-se a caminhar para uma língua quase monossilábica, como o chinês. Nenhum outro idioma europeu mostra tanta dinâmica, tanto vocábulo truncado como o sueco. Também com uma regularidade quinquenal, suprimem-se uns quantos termos do vocabulário, enquanto outros são homologados. Na semana passada passaram a ser suecas duas palavras usadas pela comunidade jovem, turca e árabe, de um subúrbio de Estocolmo: guss (rapariga) e keff  (mau; errado). E criou-se já um termo para a caça à mão-de-obra barata além-fronteiras, kostnadsjakt. Quanto a pronúncia, não lhe digo nada: As formas oblíquas pronominais, ´mim´, ´ti´, etc., escrevem-se em sueco ´mig´,´dig´ e deveriam ler-se ´migue´,´digue´, mas a tal tendência para o menor esforço leva toda a gente, académicos como iletrados, a pronunciar esses pronomes com o ditongo ei : ´mei´,´dei´. E esta preguiça do linguajar oral prevalece, submetendo-se-lhe a escrita tanto na Imprensa como na literatura, isto sempre com a benção democrática da famosa Academia.

Não se veja este meu arrazoado como uma defesa a normas ortográficas não acatadas. Há que escrever tal como se conduz –  obedecendo a regras. Por outro lado, que maravilhosas obras não nos têm dado esses irmãos brasileiros esquecendo justamente a sintaxe, a grafia, até a moral! Aquela sua (deles) arraigada fé numa libertinagem de costumes literários! Que sinceridade a desses intelectuais mandando à fava obras de teor falso-moralizante! Sim, que baforada salutar não foi Guimarães Rosa! E fazem-se compreender, deliciam, fascinam! Literatura sem jugo nem peias, como toda ela deve ser. Para lhe ser franco, caro TTS, eu, ao contrário do que se passou consigo, acho que o que talvez tenha sido omitido na frase publicada na Única, e só por mero descuido, é o particípio de ser, ´sido´, não tanto o es- de estar, isto é, ´tivesse sido traduzida para português ou inglês´. Mais: Quem leu Proust é porque sabe escrever. E depois, quem sabe?, a autora do artigo em questão talvez se subdivida entre emprego, compras, lida da casa, apoio escolar aos filhos, camisas e cuecas do marido a engomar, etc. E entre a cozedura das nabiças para o jantar e o pôr da mesa, lá se foi o seu ´es-´ ou o meu ´sido´.

Até o insigne Eça cometeu um erro ao exortar-nos a “falar patrioticamente mal línguas estrangeiras”. Mesmo havendo muito bom (e mau) político a seguir-lhe o conselho, acho isso um perigo. Primeiro porque todo o estrangeiro é visto segundo o grau de perfeição com que fala o idioma do país em que estiver. Depois, sobretudo erros de pronúncia, não raro conduzem a situações embaraçosas, cómicas. Em sueco, por exemplo, kyssa  (beijar) e kissa  (fazer xixi) diferenciam-se só pela pronúncia correcta do y grego e do i latino, distinção essa nem sempre conseguida ou esquecida pelo imigrante de cá. Em chinês, a palavra chu significa ´senhor´ e ´suíno´, além de outras coisas. Aqui, só subtis tonalidades fonéticas, não raro inacessíveis ao ouvido ocidental, logram estabelecer as diferenças desejadas.

O escritor israelita Amos Oz, provavelmente o Nobel deste ano, no seu mais recente (e excelente) livro, narrativa autobiográfica sobre o suicídio da mãe, conta-nos histórias impagáveis originadas por confusões das várias línguas (7) que os pais, judeus russos, falavam, e a sua que, enquanto miúdo, era só ainda um hebraico em embrião.  

E já que de vocábulos falámos, uma história ingénua que me foi contada em Cuba por um poeta-dissidente: Fidel de Castro passa por um garoto. Este não lhe liga nenhuma. Agastado, Fidel interpela o miúdo: No sabes tú quien soy yo? O garoto responde que não sabe nem lhe interessa saber. Furioso, Fidel ordena: Como castigo, tienes que decirme 20 palabras que comiencen con C , para que no se te olvide que mi apellido es Castro. Então o garoto diz de uma tirada: Companero comandante Castro cómo y cuándo comeremos carne con cerveza Coronita como comen los c------- comilones del comité central comunista cubano? Perplexo, Fidel diz: Carajo! No te faltará una palabra?  O garoto: C-----!              

 

Alexandre Pastor

JORNAL DE LETRAS      

(Suécia, Abril 2006)

2 livros suecos

 

A todo aquele que acompanhe, ainda que por alto, o que de melhor se publica na Europa no género de ficção literária, não deve ter passado despercebido o facto de que Portugal está na moda. Às vezes en passant , outras, digamos assim, em cheio. Quando escrevo Portugal refiro-me, é claro, a referências estrangeiras feitas a escritores nossos, ou menções à nossa capital, a qual para alguns é já “uma Paris mais simples e mais pobre, por isso mesmo até mais cativante”! Que Eduardo Lourenço, Lobo Antunes e Saramago estejam atrás desta popularidade (para não falar do nosso super Camões), é de esperar. Mas até Mariza e Manoel de Oliveira fazem já parte da lista. Com um livro do sueco Henrik Nilsson (n. 1971), chegou-se agora ao extremo deste fraco por aspectos lusos. Em parte há motivo para nos congratularmos, pois felizmente estas suas sete novelas (160 páginas com a acção a decorrer ou em Lisboa ou na província) apresentam-se totalmente isentas - como diria talvez um douto Mia Couto – de cambapés e sordidezas políticas.  

Poeta, crítico e jornalista, Henrik Nilsson viveu vários anos na nossa capital, tendo agora regressado à sua cidade natal, Malmö, vizinha da blasfema e divertida Copenhaga. Desconheço o grau de conhecimentos que este sueco tem da nossa língua, o que para este caso é relevante, sublinhe-se, já que o autor não se propõe apenas descrever muito do nosso quotidiano, mas sobretudo ainda mais do nosso psique. Em  Aquelas noites, Verónica![1] , que é o título do livro, no qual não há uma só gota pornográfica, na primeira novela, “A última estação”, lemos como um escritor, de nome Mário, tem de ir a Beja dar uma conferência. Adormece porém no comboio e acaba por sair em Moura, onde passa a noite. Na vila encontra um cego que o leva a uma associação cuja tradição é a de reunir gente que tem histórias para contar, isto segundo um tema dado previamente. As três narrativas que os presentes ouvem e que Nilsson nos reconta, são tão kafecanianas quanto borgeanas. Têm os títulos: “A mulher com andar lento”, “Os rostos”, “As notas (musicais) perdidas”. Henrik Nilsson escreve, indubitavelmente, num sueco poético, pictural, assaz melancólico, estejamos nós com o personagem Eduardo, o qual investiga na Sociedade de Geografia, ou com o Sr. Dacosta, em Sesimbra, com Carlos Monteiro com escritório no Cais do Sodré, quase falido, ou com Sérgio, Teresa ou Adriana, esta da Amadora. Contudo, acabada a leitura deste livro, e por estreito que seja o beco sem saída em que o nosso país se encontra e por belas que sejam algumas das reflexões do autor, não consigo vê-lo nestas páginas. Não o reconheço como país nem a mim próprio como português. Reanaliso, com pormenor, o que esta leitura deixou dentro de mim, e cada vez que o faço concluo que, mau grado um forte empenho do autor em concretizar a sua visão kafecaniana da nossa sociedade, o que cunha a prosa deste livro é simplesmente pura inanidade. Por que não quis dar um remate a uma só das suas histórias, Henrik Nilsson? Teria sido interessante – e decisivo -  lê-lo. Não é que a norma literária ou eu o exija, nada disso, mas assim como nós, portugueses, dizemos “fiquei mal comido”, com o seu livro “eu fiquei mal lido”. Sim, porque assim tão ineptos não somos, asseguro-lho. Se até de brandos costumes já nos deixámos! Um breve conselho: leia, por exemplo, um ou outro destes contos: “Retrato de Mónica” (de Sophia), “O convidado debaixo da mesa” (de Agustina), “Crescei e multiplicai-vos” (de Urbano T.R.), todos os de Judite de Carvalho, Ondina Braga, etc., ou um de alguém mais novo, Rui Zink, e verá então por que razão não podemos deixar de gostar de nenhum deles.

 

 

Como todos nós sabemos, houve, há e haverá sempre uma literatura a que, à falta de melhor termo, eu chamo “literatura para bisbilhoteiros”, já que se trata de um género que se empenha em desvendar o que de mais íntimo houve ou há na vida de um escritor ou escritora mais ou menos conhecidos. Isso acontece por iniciativa de editores vorazes ou, como já se vê agora, por decisão dos próprios autores. Entre nós, as recentes “Cartas de Guerra” de Lobo Antunes e o strip-tease político-social ”Bilhete de identidade” (aliás, bem escrito) de M. Filomena Mónica, são exemplos disso. Longe de qualquer puritanismo, talvez pelo travo de sabor indizível que me deixa, não consigo apreciar tal literatura. Meras razões profissionais levam-me a lê-la.

Na Suécia acaba de sair uma antologia do género: Cartas de Amor de Autores Suecos [2] , escritas por escritores e escritoras, todos eles já falecidos. São 199 páginas de intimidades que quanto a mim nunca deveriam ser reveladas, sendo, como são, propriedade exclusiva dos destinatários (ou herdeiros), e nada alteram ou adiantam quanto à fama e qualidade literária dos seus autores. Que muito boa gente leia este tipo de epistolografia com a mesma voracidade com que lê um policial, é sintomático. Aqui vou limitar-me a uns quantos nomes mais conhecidos do público português, todos eles clássicos: No grupo dos infelizes está, por exemplo, a rainha Cristina da Suécia. Hermafrodita que era, depois de admirar dois marranos portugueses, o seu médico e o seu banqueiro, acabou os seus dias em Roma apaixonada por um cardeal italiano. A sua excelsa cultura patenteia-a ela em cada linha escrita. Edith Södergran foi um caso semelhante à nossa Florbela Espanca. A beleza, modernidade e franqueza da sua capacidade de paixão, são, em missivas, idênticas à lírica que nos deixou. Victoria Benedictsson (1850-1588), a qual escreveu sob o pseudónimo masculino Ernst Ahlgren, casada, teve uma paixão pelo judeu Georg Brandes, famoso crítico literário dinamarquês. A sua carta de despedida (suicidou-se em Copenhaga) é uma súmula, em estética psicológica, das cartas de Soror Mariana. O ciúme patológico evidencia-se até nos melhores escritores. Em Hjalmar Bergman, por exemplo. Dele, numa carta à noiva, Stina, temos já provas de futura  violência conjugal. Strindberg, cujo epistolário é infindo, é, sob todos os aspectos, magnífico. Uma carta a Siri  von Essen, sua primeira mulher (arrebatada a um aristocrata), é o expoente máximo da arte de persuação. O caso de famosa Selma Lagerlöf (Nobel em 1909), lésbia, é triste. Aqui, o redactor responsável por este livro nem se coibe de reproduzir as cartas em que Sophie Elkan, amada por Selma, a rechaça e recrimina pelo assédio sexual a que se vê sujeita. Etc.,etc. Quando todos nós sabemos que este sublime sentimento, amor, deixa inevitavelmente arranhões por onde passe, à quoi bon ce livre?


[1] Bokförlaget Forum, Stockholm, 2006

[2] Lind & Co, Stockholm, 2006

 

SILHUETAS

A etimologia, como ciência, além de surpresas e sumo prazer a quem ela se dedique, dá-nos muitas vezes a explicação de difusas questões históricas, sociais, bíblicas, culturais. Em tempos de economias conturbadas como é o nosso, até esclarecem fenômenos de carácter financeiro. É o caso do vocábulo * Silhueta*. Quanto a ortografia e pronúncia é inegável que a palavra tem muito de elegante, de refinado. Não fosse ela de origem francesa, dos meados do século XV, período dessas cortes dos Luíses que primavam por invulgar requinte. Silhueta, como termo, é definido no dicionário português assim “ Desenho que representa o perfil de uma pessoa, segundo os contornos que a sombra dela projecta”. Nem mais. Só é pena que o livro não nos diga ainda que foi um ministro das Finanças que deu origem à palavra. Ministro esse que de elegância tinha muito, de competência econômica muito pouco. Foi assim: Em 1759 é indigitado, em França para o cargo de ministro das Finanças, um tal Étienne de Silhuetas ( 1709-1767 ). As reformas econômicas ( leia-se “ pesados impostos” ), que logo quis impor, redundaram em total fiasco. Grassaram piadas difamatórias, canções de maldizer, até Voltaire ( 1694-1778 ) se envolveu de corpo e alma na campanha contra o monsieur Silhuette, do qual se disse: Foi-nos apresentado como uma águia, e em menos de três meses converteu-se em ganso. Poucos meses depois, Étienne de Silhuette pedia  a sua demissão.

Aconteceu que, nessa altura e no país da moda por excelência, retratos feitos em papel recortado tornaram-se popularíssimos. E se eram baratos, comparados com os pintados a óleo, por outro lado também exigiam técnica e talento. Mas embora expressivos, eles não deixavam de ser apenas o perfil de alguém, não uma pessoa real. Eram apenas uma sombra, uma figura sem sombra, uma figura sem substância. Ora como a essa forma de arte não tinha sido dado um nome, por natural associação de idéias como o tal ministro incompetente, passou-se a chamar-lhe simplesmente silhuetas. Pouco depois, a expressão à la Silhuette começou a usar-se at’e para designar coisas mal feitas, mal amanhadas, preparadas sem reflexão, a trouxe-moche.

Na Suécia temos o caso de um senhor que, de apresentador de telejornal ( mas sem voz para tal) chegou a presidente do conselho directivo da mesma TV, tendo passado pelo cargo de ministro das Finanças e Comissário para o desemprego na EU. Há coisa de três semanas, o Partido do poder fé-lo Prof, com maiúscula. De quê, não sabe nada. Por ultimo, uma pergunta: Porque não aprendem os ministros das Finanças, além de um mínimo de Economia, evidentemente, também um mínimo de História? Por exemplo, que quando os visinhos espanhóis quiseram impor um certo imposto na Holanda, em 1500, desencadearam uma guerra que durou decênios; que a revolução americana teve origem num protesto contra um imposto de selo, britânico; que na Irlanda, em 1300, foi decapitado um ministro que tivera triste idéia de introduzir uma contribuição predial

 

 

Alexander Pastor

22, de Agosto 2001

 

 

 

Palavras do arco da velha

 

Um dia, estava eu numa bicha para o concerto de despedida do pianista Artur Robinstein, em Estocolmo, quando ouvi um dos dois cavalheiros que se encontravam atrás de mim a dizer para o outro: Han fike kalla fötter

Nessa altura já considerava razoáveis os conhecimentos que possuía do sueco como idioma. Após ter aceitado o convite para leccionar nesta capital, dispusera-me a aprender mais essa língua o melhor e o mais rapidamente possível, pois apercebera-me que o juízo que aqui se faz de um estrangeiro é directamente proporcional à sua capacidade de se expressar na língua deles.

         Confiado, como vivia na bagagem vocabular que adquirira ( a par da gramática impusera-me memorizar três centenas de vocábulos diários), não é para admirar que aquelas quatro palavras, de banais que são, me tivessem deixado em sobressalto. Elas significam literalmente: << ele sentiu os pés frios>>, ou melhor ainda: << Os pés arrefeceram-se-lhe>>

         Evidentemente que estas latitudes justificam que se fale em pés gelados (note-se que o nórdico, neste caso, não diz gelados, como nós, mas só frios), mas apesar de eu estar a ler na bicha, apesar de o vento que soprava não ser nada tépido, a anomalia da expressão feriu o meu ouvido. É que o sujeito que falara não se queixava, como é normal, na primeira pessoa, Não dissera: << Jag fryser om fötterna>> ( tenho os pés gelados), mas referia-se a uma terceira pessoa (ban, ele), isto é, sabe que esse tal fulano sentira os pés gelados. Como explicar isso? E ouvi-me a dizer com os meus botões: Aqui não há só pés frios. Aqui também há gato. A essência mistificadora da expressão, com paralelos no alemão e no inglês, acenava-me assim em plena rua, convidando-me a desenredá-la.

 

É claro que a aprendizagem de uma língua passa sempre por fases frustrantes, pois no momento menos pensado uma só palavra ou dito é capaz de nos tirar todas as ilusões, deixando-nos conscientes do restrito que é o campo dos nossos conhecimentos. O que aconteceu a Isle Losa no nosso país é digno de menção. Perguntara como se devia dirigir às pessoas em Portugal, e disseram-lhe que iss é uma coisa muito fácil. Por outro lado, a sua perplexidade perante a miríade de formas de tratamento usadas entre nós deixava-a cada vez mais confusa (neste aspecto nenhuma outra língua nos supera). Até que de decidiu a estudar, com detalhe, o assunto. A essa admirável compilação de observações que nos tornam conscientes das múltiplas nuances usadas no trato com o nosso próximo, ela chamou << Não é tão fácil como parece>>.

E não é. Os estrangeiros que o digam.

No que respeita ao sueco, há que estar sempre de pé atrás porque construções sintácticas de origem baixo-alemã associam-se a hibridismos linguísticos e até a reminiscências bíblicas. Acrescente-se a isto a sem-cerimónia com que qualquer gato-pingado fabrica novos vocábulos, homologados, sem relutância, pela própria Academia. Mas voltemos aos pés frios. Tanto no inglês como no alemão há expressões paralelas. Em inglês, << have cold feet>> é o termo sobretudo militar que expressa <<sentir medo>> (falta de coragem). O alemão, esse tem duas variantes, ambas também usadas em sentido figurado: << kalte Füsse holen>> exprime que alguém não teve sucesso em alguma coisa, enquanto << kalte füsse bekommen ( ou kriegen)>> expressa o abandono de um projecto ( ou o afastar-se de um grupo), por uma pessoa, após ter reconsiderado certos factos. Desta segunda alternativa derivou a expressão sueca, a qual tem acepção

Idêntica à alemã.

         Mas que tem afinal a ideia de << pés frios>> que ver com o suspender uma resolução tomada, o abandonar um plano em que se ia participar com outros?

         Aqui comprova-se mais uma vez a necessidade de em questões etimológicas, obscuras, considerar seriamente não só a mitologia popular como sobretudo passagens bíblicas.

         Desde tempos imemoriais que a ideia de purgare ventrum ( fazer as suas necessidade) é dada através dos mais delicado eufemismos. Já o juiz e profeta Samuel se refere a um encontro entre Saul e David ( 1 Sam.24:4) dizendo que Saul fora àquilo que os brasileiros tão belamente chamam << privada>> ( a nossa retrete), e ali encontrara David. E no entanto, à época, no hebreu antigo, existia já uma expressão para designar esse acto de << ir à retrete>> ou << fazer as suas necessidade>>. Era com o eufemismo << cobrir os (seus) pés. (reconheça-se que a suavidade deste modo de dizer é tão aceitável como o que dizíamos no liceu nos meus tempos de rapaz: << dá-me licença que vá lá fora>>, ou até a já antiga forma inglesa: <<i must spend a penny>>)

 

A expressão hebraica alude, evidentemente, às peças de roupa que se baixam no também chamado << gabinete das meditações urgentes>>.

E faz-se uso dela pelo menos até meados de século XVI, pois Lutero (1483-1546), na sua tradução da Bíblia para o alemão escreve: seine Füsse zu decken. Numa bíblia sueca de 1541 também é usada uma tradução literal do hebraico. Isto é, << täcka sina fötter.>>

         Com o decorrer do tempo, pelos vistos, alguém, um dia, começou a sentir que dizer << cobrir os (seus) pés>> era uma figura exagerada de retórica, pouco ou nada decente, quem sabe? Talvez a expressão tivesse passado a revelar mesmo uma ausência de cultismo. Também é muito provável que tenha sido um ligeiro sentido de humor, de ironia. (casos em que a graça de espírito é factor etimológico, abundam), que fez com que se começasse a dizer preferivelmente << tenho os pés frios>> ( implicitamente ter necessidade de cobri-los).  Desconhecendo-se, no entanto, quando este novo eufemismo para a mesma necessidade passou a substituir a expressão original, hebraica. Depois, pouco a pouco – e porque a pessoa que a dizia se afastava dos presentes – ela foi deixando de designar a tal finalidade indecorosa, ao mesmo tempo que passou a ser usada na terceira pessoa ( ban fick kalla fötter), referindo-se agora a alguém que abandonava um projecto após melhor ponderação.

         Neste texto mencionei a palavra penny. Ora quem diria que este breve e elegante dissílabo, de extrema facilidade de pronúncia, é ainda hoje pomo de discórdia entre etimologistas? Como moeda, penny foi cunhada pela primeira vez em prata, em meados do ano 700, pelos reis saxónicos de Kent e Mercia. Tinha paridade com o dinário francês da época, e era a moeda mais importante da Inglaterra. Em 1797 passou a ser cunhada em cobre, em 1860, em bronze. Ora, segundo uns, a origem do vocábulo está no latim pendo  ( eu peso), mas também não se pode excluir o facto de na sua época reinar um monarca saxão de nome Penda. Uma terceira teoria aventa a possibilidade de se tratar de uma deturpação germânica do termo latino patina, cuja significação é prato pequenino, tigela.

         Que inimagináveis surpresas não pode proporcionar-nos uma só palavra, por pequena que seja! Em verdade, só um megalómano pançudo chamado Napoleão podia ter proferido esta gracinha-fanfarrona: << impossible n’est pas français.>>

 

 

Chinesices e não só

 

 

Tudo teve inicio no vestíbulo de um hotel de Taipe. Taipe a capital de Taiwan, ilha a que nós portugueses, outrora chamámos Formosa. Segundos após ter visto o meu passaporte, o empregado da recepção abriu-se num sorriso desmesurado ao mesmo tempo que, num trejeito de adoração, empunhado o documento, se curva duas ou três vezes sobre o balcão. Na minha ignorância ocidental, atribuí tais mesuras à refinada. Delicadeza oriental, além de já saber que, na História desta ilha, os portugueses tinham ficado como sendo os bons da fita, enquanto os ruivos holandeses, sem perdão, foram os maus.

A tragédia, contudo, não tardaria em começar. Foi quando dei o número do meu telemóvel para que a recepção me contactasse quando alguém me procurasse e eu estivesse fora do hotel. Ora acontece que no meu número abunda o 4, numeral este que para o chinês é sinónimo de desgraça. Pior ainda: alude à morte, pois quatro em chinês pronuncia-se como o verbo morrer (si). E se um 4 é precedido de um 1 ( o meu caso ), então a combinação é fatal. Pronuncia-se (yao si), o que é o mesmo que dizer tem de morrer. Mas se um 4 já é mau agoiro. Imagine-se como os chineses olham para dois ou três 4 num e mesmo número. Assim, num gesto de clara repulsa, foi-me devolvido o papelinho com o número anotado, enquanto me interrogam, em bom inglês, como  podia eu andar com aquele agoirento objecto no bolso.

Língua monossilábica que é, o chinês é rico em tais interpretações duplas, as quais aliadas a um milenário fraco pela superstição, explica muitas das verdadeiras psicoses sociais aqui prevalecentes. Por exemplo: as operadoras de telecomunicações que atribuem números com o numeral 14, para terem clientes viram-se obrigadas a baixar para metade os custos das chamadas, porém a maioria delas aboliu de vez o 4 dos números dos utentes. Nos prédios e hotéis passa-se do terceiro para o quinto andar, já que no quarto andar (silou) soa quase a (sile) que significa já morreu. (Note-se que para agradar aos hóspedes ocidentais também já excluíram o 13° andar). E quando um sujeito culto me assegurou que no dia 4 de Abril 2004 ( sem nomes para os meses, o chinês usa os ordinais para os designar) não se fechará um só negócio nem ali nem na imensa China, então duvidei que pisava a terra do sábio Confúcio (441-479 a.C.) e da fabulosa dinastia Ming (1368-1644).

E se duvidei, mais ainda aprendi. Por exemplo, que para ter sorte não há como o número 8. casamentos, negócios e viagens devem fazer-se só nessa data e, para sucesso ainda mais garantido, no oitavo mês (Agosto). O arranha céus mais alto de Xangai tem 88 andares, que quiser três 8 num telemóvel (série ideal) paga uma taxa suplementar, assim como na placa de registo de automóvel. ( Neste caso bem precisos, pois o modo de conduzir chinês é, no mínimo, igual ou até pior que o dos portugueses.) porquê esta crença no número 8? Muito simples: este numeral pronuncia-se (ba), som que soa quase com (fa), o qual por sua vez é a primeira palavra do verbo (fa cai), cujo significado é enriquecer, gerar dinheiro. Daí muitos pais baptizarem os filhos com os nomes Fa ou Cai, e até Wan Fa-wem, porque (wan) é a palavra para o numeral 20 mil, o que deixa assim o garoto habilitado para a taluda a vida inteira.

Depois, do mundo fantástico da superstição pagã passei para uma realidade mais séria, a história. Isto deu-se quando o guia turístico Lo Suyin, sabendo-me luso, me dá a ler 1421. The year China discovered the World. << Mas se fomos nós que o fizemos!>> - ripostei ao ler o título. Que não. E a prova estava ali nas 389 páginas de Gavin Menzies, ex-comandante inglês de submarinos, agora historiador. Confesso que foram noite agitadas as que passei a ler este livro que, além de bem escrito, engaja, ensina, surpreende, além de, obviamente, suscitar inúmeras questões. O que nos revela então a obra de inédito? Sucintamente, isto: a 8 de Maio de 1421 – recordemos que Gama fundeou em Capocate a 20 de Maio de 1498, Magalhães, após dobrado o estreito, foi morto em 1521, Cook teve o mesmo destino em 1779, e Colombo fez a sua quarta viagem à América Central em 1502 – uma gigantesca armada de enormes juncos deixou a China para, durante dois anos e por mares fora, ir não só espalhar a sábia harmonia confuciana, como também estabelecer laços comercias onde quer que aportasse. E pelos vistos chegaram à Austrália, ao pólo antárctico, à Américas do Norte, à Gronelândia, tendo ainda contornado a ponta meridional do continente sul-americano.

 

Ao tempo, século XV, a China vivia a dinastia Ming, e o seu quarto imperador, Zhu Di, regente cuja inteligência, sabedoria e visões permite que seja comparado a um príncipe da Renascensa, após ter mudado a capital da Grande Planície para Beijing, aí se rodeou do melhor que a sociedade dispunha quanto a cientistas, humanistas, filósofos. Sendo ele próprio astrónomo, a arte de navegar era-lhe grata. Reuniu então dezenas de milhar de artífices para que nos estaleiros de Longjian fossem construídas centenas e centenas de embarcações. Segundo a técnica mais sofisticada e capazes de transportar não só os muitos tripulantes requeridos, como ainda médicos, artistas, historiadores, concubinas, e uma galeria imensa de animais como galinhas, cães, porcos, até rãs e gado cavalar! Levavam também arroz, sementes soja, quantidades imensas de limões ( que evitavam o escorbuto). Lontras adestradas, aos pares, impeliam cardumes a entrar em redes preparadas entre os barcos, processos de dessalinação conheciam-nos eles, evidentemente, assim como um novo método de medir a longitude. Com tudo isto à disposição, a epopeia não pôde falhar. Foi feita sob o comando do eunuco-mor Zheng He. Contudo depois de realizada, a visão falhou. Segundo Gavin Menzies, Zhou Man chegou à Austrália e à América do Sul; Hong Bao ao Antárctico; Zhou Wen à América do Norte e Gronelândia. Yang Qing ( o comandante achou como medir a latitude) percorreu todo o Índico. Isto explica ( o testemunho genético de Menzies que haja ( oriundas da Ásia) bananas no Havai, genes asiáticos no algodão sul-americano, milho americano na China, etc. Mas o sucesso ao sucesso deste gigantesco empreendimento seguiu-se uma reflexão bem confuciana: as imensas alterações e novidades causaram agitação, mudanças tão abrangentes punham em perigo a ordem universal, a paz, melhor seria a ponderação, recolhimento, tradição. Entretanto, um incêndio destrói a cidade proibida, do imperador. E inúmeros livros, claro. Mau agoiro. E a China fecha-se em si própria. Tudo cai no esquecimento, agora que sabem que o país é o centro do mundo.

Quanto às pesquisas do autor, elas duraram 15 longos anos, tendo tudo começado ao deparar, em Veneza, com um mapa traçado com uma precisão invulgar. Era de 1424 e mostrava a Europa e África como jamais se haviam desenhado. Depois de pesquisar nos nossos arquivos, Gavin Menzies encontra na China inscrições no porto de Yangtze que provam tudo o que afirma. A obra foi publicada pela Bantam Press, é um bestseller na Inglaterra, e a BBC vai preparar um longo documentário sobre os factos históricos descobertos. Ao guia Lo Suyin disse que se assim é, << por outro lado foi um português o primeiro a descrever cabalmente o vosso país por dentro>>. ( Marco Pólo que me desculpe). E prometi mandar-lhe a versão inglesa de Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto.